ESPECIAL:
O DIABO É O PAI DO ROCK?
A
discussão sobre quem é o verdadeiro pai do
rock volta a ser manchetes depois de divulgadas declarações
do novo Papa, que afirma: "o rock se opõe ao
culto cristão"
Antonio
Rodrigues Junior
A
velha questão sobre o anjo Lúcifer - popularmente
conhecido como Diabo ou Satanás - ser ou não
o pai do rock voltou a ser pauta das discussões religiosas
nos últimos meses. Tudo ocasionado por declarações
feitas pelo então cardeal Joseph Ratzinger, que foi
nomeado Papa - maior posto da Igreja Católica - em
abril passado. O "re-batizado" Papa Bento XVI
havia lançado diversos livros - entre eles: Introdução
ao Espírito da Liturgia, de 2001 -, nos quais
abertamente declara suas opiniões conservadoras,
como (por exemplo) que "o rock se opõe ao culto
cristão". Desde sua eleição, esses
livros vêm batendo recordes de vendas.
Mas
as acusações de que o rock seria uma forma
demoníaca de música vem desde de seus primórdios.
Quer um exemplo? O músico de blues Robert Johnson
- artista da década de 30, que influenciou diretamente
o rock - já era acusado de ter um pacto com o Diabo.
Mas as lendas de que o rock tem ligação com
o "chifrudo" são muitas. Quem nunca ouviu
falar que, ao se escutar um disco ou uma música ao
contrário, irá ouvir mensagens diabólicas
- o Led Zeppelin (a banda mais acusada disso de todos tempos)
que o diga.
Difícil
é descobrir como tudo isso começou. As teorias
mais contundentes partem do fato que o rock e seus artistas
sempre pregaram a rebeldia e a desobediência, além
do sexo livre e uso de drogas (muito comuns durante a década
de 70). Todas essas características vão exatamente
na contramão da doutrina ensinada pelas principais
religiões - como a católica e a evangélica
- e logicamente que são facilmente associadas a características
satanistas.
"Temos
uma posição de que louvor é uma coisa
e a música é outra completamente diferente",
declara o protestante Kim (vocalista e guitarrista da banda
Catedral). "Dentro dessa visão, achamos realmente
que o rock não se enquadra liturgicamente em um culto
cristão. Existem outros estilos de música
mais apropriados para esse fim. Rock é rebeldia e
se enquadra muito mais em uma transformação
social se você adicionar conteúdo e possibilitar
a reflexão."
Aparentemente,
a partir dos anos 70, os grupos começaram a gostar
da idéia e passaram a assumir o satanismo e o ocultismo
como um elemento a mais em sua música. Rolling Stones,
Black Sabbath, AC/DC, Kiss e tantos outros são grandes
exemplos. Todos têm canções abordando
o tema e, conseqüentemente, todos são considerados
pessoas ligadas ao Demônio.
"Vemos
a religião como uma criação do homem,
cheia de deturpações e corrupções,
que, aliada a política e seus segmentos, iludi as
massas", defende o ateu Moyses Kolesne (guitarrista
do Krisiun). "Sempre preferi o rock verdadeiro, que
descende do blues negro americano, como Robert Jonhson.
Ele sempre foi de encontro ao satanismo lutando contra a
opressão racial e religiosa. Foi o primeiro músico
a se referir a Satã como um indivíduo que
liberta. Satanismo como religião não existe
e, se existir, é falso. Não suporto bandas
cristãs em especial, pois - além de nunca
ouvir algo que preste destes lados - a temática cristã
é contra o rock, que é liberdade, filosofia
e expressão."
Com
o decorrer dos anos, principalmente a partir dos anos 80,
as coisas vem se invertendo. Grupos declaradamente católicos
ou evangélicos surgem para provar que as coisas não
são bem assim como dizem. A religião passou
a ser um tema muito abordado (seja contra ou a favor), assim
como seus ensinamentos. "Foi Deus que inventou todas
as coisas, inclusive a música", prega o evangélico
Ricardo Parronchi (baixista do grupo white metal Destra).
"O que acontece é que todas as coisas podem
ser usadas para o bem ou para o mal. Depende de quem faz
e como a usa. Essa idéia de que o estilo musical
pode ser apenas destrutivo tende a se dissipar. Mas, sinceramente,
se o Papa começar a dizer coisas desse tipo, eles
continuarão a perder fiéis como já
vem acontecendo."
Porém,
muitos religiosos conservadores mantém suas posições
contra o rock and roll. O lado conservador da Igreja (seja
de qual for a religião) contraria a proposta de diversos
grupos que adotaram o chamado "rock gospel" como
forma de pregar a palavra de Deus e Jesus Cristo. No Brasil,
nomes como Catedral, Oficina G3, Eterna e Destra são
exemplos deste trabalho.
Durante
as últimas duas décadas, o heavy metal - a
tendência mais acusada de trazer mensagens satânicas
- acabou se tornando a tendência do rock que mais
explora a religião. Recentemente, o grupo de heavy
metal tradicional Grave Digger gravou um álbum inteiro
- The Last Supper - sobre religião e a vida
de Jesus Cristo, inclusive trazendo a imagem do próprio
Cristo na capa. Por aqui, o último trabalho de estúdio
do Angra (Temple of Shadows, de 2004) também
entrou no assunto. O disco conceitual retratava o descontentamento
de um cavaleiro com as ações da Igreja Católica,
como as Cruzadas, no século XI.
"Existem
vários grupos que não têm uma temática
religiosa", opina o baixista Jason Freitas, da banda
católica de heavy metal Eterna. "Abordam outros
assuntos em suas letras como política, textos teatrais,
guerras medievais, mundos de fantasia, dragões etc.
Cada um fala daquilo que acredita, vive ou gosta. O músico
é livre e criativo para isso. Em relação
as declarações do Papa, estas foram dadas
há mais de dez anos, quando ainda era cardeal e o
rock vivia uma era de apologia ao sexo, drogas e outras
condutas, que realmente se opõem à Igreja.
Devemos dar a chance dele se mostrar como Papa e não
mais como cardeal."
Mas
a exploração do tema é tão grande
dentro do rock pesado que foram criados até dois
estilo separados para a discussão do assunto: o white
metal e o black metal. O primeiro é composto por
religiosos, objetivando divulgar suas mensagens. Enquanto
o segundo é formado por satanistas assumidos ou simpatizantes,
que buscam ir contra a todas as formas de opressão
como (a por eles declarada) religiosa.
"A
'alegoria do Diabo' traz a mensagem da contestação
e da discordância universal", alega o baixista
Zhema Rodero (líder do Vulcano, um dos maiores nomes
do black metal nacional). "Foi por esse único
motivo que a Igreja o criou. Dessa forma, qualquer discordância
ou mesmo contestação daqueles dogmas seria
um ato malévolo. Conclusão: o Diabo e rock
são sinônimos nessa alegoria toda. O Papa tem
toda razão. Realmente é uma oposição,
como muito bem colocado por ele, ao 'culto cristão'.
Não disse ao filósofo judeu Jesus de Nazaré.
Esse filósofo jamais quis ser adorado!"
As
discussões e ataques dos dois lados não param.
No último festival Brasil Metal Union, durante
a apresentação do conjunto black metal Ocultan,
diversos fãs gritavam "Hey, Eterna! Vai tomar
no c...". A banda católica também se
apresentou no evento, porém do dia anterior.
Outro
fato que chamou a atenção para o tema foi
uma atitude de Dave Mustaine, do Megadeth, no início
de maio deste ano. O músico, que declara ter se convertido
ao cristianismo há três anos, ameaçou
cancelar a participação de sua banda em dois
festivais que aconteceriam na Grécia e em Israel,
nos quais a banda de black metal Rotting Christ também
se apresentaria. Os organizadores acabaram dispensando o
conjunto e optando pela presença do Megadeth.
"Infelizmente
fomos obrigados a cancelar duas apresentações
que faríamos em grandes festivais, sendo a razão
- como sempre - o nome da banda", manifestou-se o vocalista
Sakis Tolis, do Rotting Christ, em nota oficial sobre o
ocorrido. "Um nome que expressa nossa total oposição
a qualquer espécie de religião. Um nome que
se contrapõe a qualquer visão falsa de uma
vida eterna e pacífica. Um nome que atinge em cheio
a visão conservadora e hipócrita de uma sociedade
que se diz democrática. Infelizmente a mentalidade
da Idade Média ainda persiste no novo milênio,
mas o metal continuará apoiando a liberdade de pensamento,
algo que sempre fez desde que foi criado."
O
fato mais inusitado misturando rock e religião surgiu
no mês passado. Um padre espanhol chamado Joan Enrique
Reverte acaba de lançar um disco, no qual o rock
pesado é o estilo adotado. Seu álbum, intitulado
Provocando La Paz, já figura entre os 100
mais vendidos na Espanha e apresenta letras extremamente
politizadas contra a Globalização e pedindo
pelo fim da dívida dos países pobres. O Padre
Jony - como é conhecido - celebra missas em três
paróquias, mas atualmente encontra-se em turnê
pela Europa e já tem planos de vir ao Brasil em meados
de janeiro do ano que vem.
Todas
essas declarações e lendas em volta do rock
and roll fazem a questão sobre quem é o verdadeiro
pai do rock ser uma verdadeira incógnita: o Deus
ou o Diabo? Ninguém sabe! Porém uma coisa
é certa, quando o assunto é música,
católicos, evangélicos, protestantes, satanistas,
ateus e outros são unânimes: Rock!
