SÉRGIO
DIAS: O EX-MUTANTE EM VERSÃO JAZZ
Com
o relançamento de Jazz Mania Live, o músico
abre as páginas de um importante período de
sua vida musical.
Por
Regis Tadeu
No
longínquo ano de 1985, as únicas notícias
a respeito do genial guitarrista Sérgio Dias davam
conta de uma bem sucedida carreira no exterior, mais precisamente
nos Estados Unidos, onde ele tocava com gente do calibre
de Eumir Deodato, Airto Moreira, Flora Purim, do violinista
L. Shankar e dos baixistas Fernando Saunders (que havia
tocado com Jeff Beck e Lou Reed) e TM Stevens (ex-James
Brown). De volta ao Brasil para se apresentar na primeira
edição do Free Jazz Festival, foi lançada
a semente musical que culminaria, um ano depois, em uma
mini temporada no hoje extinto Jazzmania, no Rio. As gravações
destes shows estão sendo relançadas agora
em CD, com o título de Jazz Mania Live em
uma tiragem limitadíssima - foram colocadas no mercado
apenas 2.500 cópias.
"Vim
para o Brasil tocar no Free Jazz e resolvi fazer
um show no Jazzmania, que acabei gravando. Voltei aos EUA
e esqueci destas fitas. Um dia, pegando um gravador emprestado
de um amigo, toquei-as para a Lurdinha (mulher e empresária
de Sérgio), que caiu de costas, surpresa com o que
ouviu".
Mas
foi um problema de saúde que acabou desencadeando
todo o processo. "Um dia, no Rio, tive um problema
conhecido como 'ombro congelado' no meu braço, que
me impediu de tocar por uns sete meses. Tive de fazer fisioterapia,
um negócio muito dolorido. Como não tinha
nada para fazer, resolvi mixar estas fitas. Quando voltei
a São Paulo, meu técnico de som resolveu vir
também e me incentivou a lançar isso em disco.
Foi por intermédio dele que entrei em contato com
o pessoal da Editio Princeps (selo responsável pelo
relançamento). Decidimos fazer uma tiragem limitada
de 2.500 cópias, como se fosse uma serigrafia assinada
pelo próprio autor. O legal deste disco é
que ele mostra, basicamente, uma espécie de fotografia
musical daquilo que eu fazia em Nova York na época,
coisa que ninguém tem uma noção concreta,
já que só se falava que eu estava tocando
com o Airto, a Flora e o Shankar", conta o guitarrista.
Segundo
Sérgio, as composições já estavam
prontas, mas 80 % do que se ouve no disco surgiu de improvisações
que pintaram na hora. "Todos os músicos tocavam
com sua máxima expressão. Havia apenas um
'esqueleto' das melodias e o resto era pura criatividade,
como aconteceu em 'Suíte para Filermón y La
Gorda', composta originalmente para violão e violino
e que seria incluída na trilha sonora de um desenho
animado da HBO. A arquitetura musical era aberta. Isto sim
é que era free jazz, mas com melodia (risos)".
O
guitarrista diz que, apesar de gravado em 86, o trabalho
não se tornou algo defasado em sua cabeça.
"A impressão que tenho ao ouví-lo é
a mesma de encontrar uma turma de amigos que não
vejo há muito tempo. Dentro do meu sistema interno
é algo absolutamente atual. Acho genial que isto
possa estar saindo agora. Revisitar este trabalho está
sendo um grande barato".
Embora
Sérgio concorde que a distribuição
de músicas pela Internet por meio dos arquivos de
MP3 vai acabar com os lucros das gravadoras, ele é
contra esta pirataria. "Usar a desculpa de que as gravadoras
roubam os artistas e por isso devemos sabotá-las
é errado. O Napster não era um negócio
legal. Não se esqueça que seu dono vendeu
a companhia por mais de US$ 30 milhões. Acho que
tem de haver um controle para que o músico receba
a merecida quantia em dinheiro por conta de seus direitos.
É disso que a gente vive. Quem falar que prefere
que as pessoas ouçam a sua música a receber
seus direitos está sendo hipócrita. Como um
músico pode fazer seu trabalho e representar uma
parcela dos jovens que admiram sua criatividade se ele não
conseguir grana para gravar seu próximo disco?"
Seus
novos projetos estão voltados à composição
e à produção de novas bandas. "Devo
lançar dois discos:
um para o mercado brasileiro e outro no exterior. Quero
fazer shows para promover o
Jazz
Mania
Live, de preferência reunindo a mesma banda que
o gravou. Também estou produzindo novos grupos,
como o Nem (de Goiânia), o Black Maria (de Curitiba)
e o Íris de Seda (de Belo Horizonte). Além
disso, vou produzir também o mais recente disco do
Violeta de Outono, que vai voltar com a sua formação
original".
Para
terminar, Sérgio dá esperanças aos
fãs dos Mutantes. "É claro que toparia
trabalhar com a Rita Lee novamente. Eu a adoro, ela sempre
foi minha irmã. Não teria o menor problema
de tocar novamente com ela". Para bom entendedor, meia-palavra
basta...
