Edição #62

RODOLFO ABRANTES
LAVÔ TA NOVO

Rodolfo Abrantes, ex-vocalista dos Raimundos, oito anos após sua saída da banda, conta tudo sobre como tomou a decisão de deixar a trupe no auge, seu atual trabalho, o que acha de artistas que se convertem apenas para se promover e ainda confessa ter vergonha de um dia ter tocado nos Raimundos

Fernando Guilherme Ferreira

O ano era 2001 e os Raimundos eram a banda brasileira número 1 da época. Digão, Fred, Canisso e Rodolfo arrastavam multidões, dividiam palco com Mark Ramone, lançavam discos cantados de cabo a rabo pela galera, faziam turnês pela Europa, tocavam (ao vivo) nos principais programas de rádio, tevê e vendiam milhões de CDs. Fãs-clubes se multiplicavam, os ingressos para as apresentações se esgotavam e era comum ver a garotada com a camiseta "raimundica" no corpo com a escrita: "Rock cabra-macho".

A banda estava em seu melhor momento e os seguidores só sabiam dizer: "É por isso que o Raimundos nunca vai se acabar!", frase dita na música "Marujo", do CD homônimo de estréia da banda, lançado em 94. Não que a banda nunca fosse acabar, mas era quase certo na cabeça de todos que, se um dia acabasse, não seria naquele momento mágico vivido pelos quatro integrantes. Afinal, quem seria louco de acabar com a própria banda no auge, depois de tanta luta para chegar no topo?

Pois o inesperado aconteceu. Com o fim da turnê MTV Ao Vivo, o vocalista Rodolfo comunicou aos demais integrantes que não fazia mais parte da banda. Os caras ficaram sem entender o que houve com o ex-vocal, ainda mais pelo motivo apresentado por ele que alegou ter "encontrado Jesus" e que não seguiria para a gravação do próximo álbum de inéditas.

Rodolfo dizia que estava vivendo um momento infeliz e que não cabia mais no gruo. Repensou seus princípios, seus conceitos e chegou a conclusão de que não tinha mais paz, não suportava mais aquilo tudo e que só cantava o que vivia, o que já não estava mais acontecendo. A partir daquele momento, Rodolfo passou por uma grande luta contra a mídia e contra muitos de seus fãs que não aceitavam sua posição de deixar o grupo para se converter ao cristianismo.

Os Raimundos eram conhecidos por serem a banda mais "cretina, machista e safada" da música brasileira. Rodolfo cantava os palavrões mais cabeludos fosse em um barzinho da esquina ou fosse na Xuxa. O relacionamento afetivo com seus ex-companheiros Fred e Digão definitivamente chegava ao fim. Eles diziam que o Rodolfo não pensava no próximo, nas contas para pagar, no emprego da equipe e no contrato com a gravadora. Com Canisso foi um pouco diferente, apesar do baixista não ter gostado nenhum pouco do acontecido, segurou mais a barra nas críticas, pois era o integrante que tinha (e têm) mais proximidade com o ex-vocal.

Desde então, o Raimundos teve de improvisar com o guitarrista Digão nos vocais para seguir sua caminhada sem deixar os compromissos e objetivos irem por água abaixo. Hoje, também sem Fred na bateria, o Raimundos vem respirando com a ajuda de aparelhos, tentando manter acesa a chama sacana do nosso rock com novos músicos e trabalhos com bem menos repercussão na mídia (apesar de serem bons trabalhos), até pela onda "emo" que tomou conta dos nossos ouvidos.

Em 2002, Rodolfo lançou Estreito, o álbum de estréia da sua nova banda de hardcore, o Rodox. Na seleção de músicos que escolheu para acompanhá-lo não tinham evangélicos e o som era tão pesado quanto seus trabalhos com os Raimundos. O diferencial do Rodox eram justamente as letras. Em uma das canções o vocal dizia: "Glória a Deus", mostrando ao público sua nova fase, após cantar petardos como "Tora Tora", "Eu Quero Ver o Oco" e "O Pão da Minha Prima". Rodox também não resistiu ao tempo e encerrou as atividades após dois CDs lançados. A banda acabou após uma discussão dos integrantes ao final de um show em Salvador.

A cada dia que se passava, Rodolfo se via mais religioso e com mais vontade de servir a Deus, mas não conseguiria ficar sem a música, sua fonte de inspiração. Descobriu então, na própria música, uma forma de evangelizar o público roqueiro, seus admiradores de longa data e agora segue em carreira solo. Em 2006, lançou seu disco de estréia Santidade ao Senhor e, em 2007, o álbum Enquanto É Dia. Com um som bem menos porrada do que o habitual, Rodolfo Abrantes (de 37 anos), agora louva sem dó nem piedade, as letras são realmente no estilo gospel e, segundo o músico, agora "canta para Cristo".

Muitos vão se perguntar: O que o Rodolfo está fazendo na Comando Rock hoje em dia? Explicaremos: Rodolfo conquistou, com anos de trabalho, o que muita banda vai ter de ralar muito para conseguir. Influenciou muita gente boa que está aí hoje e por isso que a Comando Rock foi trocar uma idéia com ele, pois é um grande mito do rock nacional e a música brasileira deve muito a ele.

(Leia a entrevista completa na versão impressa da Comando Rock que já está nas bancas)

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