Edição #58

COMANDO SOLIDÁRIO: INSAT - INSTITUTO SUPERAÇÃO TOTAL
SEM LIMITES PARA AS LIMITAÇÕES!

Produtor musical e cadeirante cria projeto visando os direitos e bem-estar de deficientes físicos

Paula Fabri

Durante muitos anos ter consciência social não era tido como algo "legal". Mas, com o crescimento da conscientização de que solidariedade pode melhorar e até salvar vidas, hoje o assunto é tido como algo sério. Assim, a criação e o crescimento de ONGs e fundações que têm como objetivo ajudar ao próximo, aos poucos, vão dando esperança a estas pessoas mais necessitadas, dando-lhes oportunidades de uma vida melhor.
Fazer algo bom pelo outro é um exercício que qualquer um pode fazer, basta querer. Dessa forma, Jackson Paula, dono do selo musical Heaven's Music, resolveu criar o INSAT, Instituto SuperAção Total. O produtor de eventos decidiu pegar as próprias experiências como cadeirante (usuário de cadeira de rodas) para auxiliar pessoas portadoras das mais diversas deficiências seja ela física, mental, visual, auditiva, problemas de obesidade e outras.

O INSAT ainda está engatinhando, tendo menos de um ano de vida, mas os planos são grandiosos: os principais objetivos são a luta pelos direitos dos deficientes e a integração destas pessoas à sociedade. E, para conseguir coloca-los em ação, Jackson idealizou um evento musical, o festival SuperAction Rock Night I. O objetivo desse projeto é unir o rock com o ato de ser solidário e divulgar as idéias do instituto e também promover o trabalho das bandas envolvidas. Isto é, entreter as pessoas com consciência.

A seguir você confere a entrevista concedida por Jackson Paula, onde o idealizador do INSAT falou sobre como tudo começou, a proposta desse projeto e muito mais.

Comando Rock: Quando teve a idéia de montar o INSAT?
Jackson Paula: Sempre tive vontade de fazer algum trabalho social para ajudar a melhorar o mundo. Como cadeirante passo por imensas dificuldades, mas felizmente elas não me impediram de correr atrás dos meus sonhos. Quando eu e minha esposa ganhamos personagens, baseados em nós, feitos pelo desenhista Marcio Baraldi (o Gutinho e a Pituka) pensamos: por que não usar aquela imagem alegre, saudável e positiva para conscientizar as pessoas sobre o que é ser alguém com deficiência física? Mostrar ao cidadão "normal" a idéia que ele pode ajudar muito se tiver boa vontade. E o desafio é fazer isto sem despertar sentimento de pena, buscando justiça, responsabilidade social! Até porque qualquer um pode se tornar uma pessoa com necessidades especiais. E, ao mesmo tempo, provar para aqueles que possuem limitações que é possível ter uma vida normal, ativa e digna!

Além de idealizador desse projeto, você também é portador de deficiência. Queria que contasse sobre suas próprias experiências.
Meu problema físico começou a se manifestar quando dei meus primeiros passos. Meus pais notaram uma pequena anormalidade em meu caminhar e, preocupados, levaram-me ao médico. Infelizmente, naquela época, a medicina não possuía a tecnologia para descobrir com exatidão qual era o problema. Durante seis meses usei botas ortopédicas. Hoje sei que se trata de "Amiotrofia Espinhal Tipo II", uma doença que afeta a musculatura do individuo, levando-o para a cadeira de rodas. Fui desenganado e disseram que não viveria mais que 18 anos. Hoje tenho 34 anos e nunca me senti para baixo por causa dessa deficiência, pois para mim a pior deficiência é aquela que afeta a moral e conduta do indivíduo. Por isso sempre busquei viver normalmente e da melhor forma possível.

Quais as maiores dificuldades que enfrentou?
Diversos problemas familiares, falta de oportunidades tanto para estudar quanto para trabalhar, preconceito das pessoas, não poder ir a determinados lugares por falta de transporte ou acesso. Mas, as barreiras existem para serem superadas! Meu lema é: sem limites para as limitações!

Quais são os objetivos do INSAT?
O principal é ser um instrumento de luta pelos direitos de todos aqueles que possuem algum tipo de limitação. Derrubar preconceitos, melhorar a qualidade de vida e desenvolver uma conscientização quanto à integração das pessoas com deficiência (física, mental, visual, auditiva, problemas de obesidade etc) na sociedade. E não queremos fazer isto apenas em nossa cidade, Praia Grande e região, mas aonde nossa mensagem alcançar! Mostrar as pessoas "normais" e a quem possui alguma deficiência que, independente das limitações, todos têm direitos como trabalhar, estudar, se divertir.

Como uma pessoa que é deficiente pode ser beneficiada pelo Instituto?
Ainda estamos no começo do trabalho, mas temos um planejamento a médio-longo prazo onde pretendemos auxiliar pessoas com deficiências de diversas formas. Seja com doações, oferecendo fisioterapia e cursos profissionalizantes já que não existe muita coisa nesse sentido para esta parte da população. No momento podemos beneficiá-los com o desenvolvimento dessa consciência.

Como funciona o trabalho de vocês?
Como disse, estamos no início do trabalho e ele está dividido por fases, pois infelizmente não podemos fazer tudo de uma vez. Por hora, o importante é divulgar a existência da instituição e nossa causa, promovendo campanhas, palestras e atividades de conscientização sobre o assunto. Nesta fase estamos procurando nos estabelecer financeiramente, formalizando parcerias para obter recursos e dar continuidade aos nossos programas. Em paralelo, fazemos campanhas para arrecadar alimentos e roupas que distribuímos a quem precisa, pois essas necessidades não esperam! Vale lembrar que nosso propósito é atender os portadores de necessidade especiais, mas também temos um compromisso com a população carente.

A postura do Instituto é bastante realista, sabendo que em parte os problemas não serão resolvidos. Como pretendem enfrentar e superar tais situações?
Acredito que um dos maiores males da humanidade é não saber lidar com a realidade. A realidade é dura e, às vezes cruel, mas temos de aprender a conviver com ela. Assim, mesmo quando sabemos que não vamos conseguir resolver algo, a chave é não se acomodar e lamentar, mas trabalhar com o que temos a mão para mudar algo! Sei que problemas como limitações físicas causadas por doenças é sempre muito complicado de resolver, porém podemos amenizar com um bom equipamento, com assistência. Então vamos sempre lutar nesse sentido. Mas há questões como a limitação física arquitetônica imposta pela sociedade que podemos mudar com um mínimo de boa vontade!

Muitas melhorias que podem ser feitas na parte urbana acabam se tornando uma questão política que envolve negociação e paciência. Como encarar esse fato?
Sempre perseverar e nunca se sentir inferior a situação! Se todas as pessoas que têm alguma limitação, seus familiares e amigos, tiverem consciência de que todos têm o mesmo direito - o direito de ir e vir a hora que quiser - e reivindicarmos isto de verdade, com certeza as coisas mudam! Tanto o governo, os comerciantes, empresários do turismo e de entretenimento têm de perceber que pessoas que têm uma necessidade especial também pagam seus impostos. Tenho de pagar minhas contas e impostos como qualquer outro cidadão. Com isso, teoricamente tenho direito de pegar um ônibus e ir a qualquer lugar a qualquer hora, certo? Mas não é o que acontece! Aqui (Praia Grande) tenho de andar com uma tabela de horários do ônibus adaptado para poder me locomover! E me pergunto por que a diferença? Meu dinheiro é inferior ao de quem pode pegar condução comum? Isto acontece em várias outras áreas e é algo que tem de mudar.

Além dos empecilhos físicos, pessoas com deficiências também enfrentam o preconceito. Como conscientizar que deficiência física não é um defeito de caráter?
Acho que a questão não é nem colocar no âmbito do caráter, pois não é o fato dela ter alguma limitação física que a faz ou não ser acomodada, preguiçosa, safada... Falando por mim, a primeira impressão que causo nas pessoas é o sentimento de "coitado" por eu ter um sério problema na coluna e praticamente não movimentar meus braços. Assim, acham que sou digno de dó, que não posso fazer nada. Mas, quando tenho a oportunidade de mostrar quem sou, minha essência (com defeitos e qualidades), a coisa muda de figura. O problema é que nem todos estão dispostos a conhecer o outro profundamente e julgam "o livro pela capa"! Infelizmente isso acontece. Então todo dia para nós é o dia da "superação total", hora de mostrar algo além do exterior! Acho que somente dessa maneira vamos conseguir diminuir cada vez mais esse preconceito!

O Instituto tem planos para diversos programas onde o maior objetivo à inclusão de deficientes em diversas áreas. Como funcionam exatamente esses programas?
Nem todos estão funcionando como pretendemos, até porque a instituição tem menos de seis meses de existência. Mas, a idéia é promover o desenvolvimento dessas pessoas, principalmente as que não tem a mínima condição financeira. Despertar talentos e capacita-las para a vida profissional! Também pretendemos fazer atividades na área social, como doações de produtos necessários no dia-a-dia. E atividades civis sempre procurando estar no pé do governo municipal, da sociedade, exigindo o cumprimento das leis e propondo melhorias. É bom frisar que nosso foco é ir além das pessoas com deficiência, vai até seus familiares, que muitas vezes não estão preparados para lidar com a situação. Acredito que o segredo em qualquer trabalho é nunca achar que sabe ou se pode tudo!

O INSAT também oferece palestras. Qual o teor destas palestras?
Tudo gira em torno da questão das limitações físicas, conscientização e aspecto técnico do que pode ser melhorado na qualidade de vida. O conteúdo de nossas palestras sempre é no sentido de motivar. Mostrar a todos que não existem limites para as limitações, sejam quais forem. Provar que a força de vontade e perseverança podem fazer muita diferença em nossa vida e que nada é impossível quando acreditamos!

O INSAT está organizando um festival que irá reunir diversos artistas, o SuperAction Rock Night I. Como surgiu a idéia de produzir este evento e do que se trata?
Mesmo não sendo músico, a música é essencial na minha vida! Trabalho como produtor executivo de várias bandas, além de produzir eventos através do meu selo/produtora, a Heavens Music Produções (www.heavensmusic.com.br). Além de trabalhar com vários gêneros musicais dentro da cena cristã, também fazemos eventos com bandas e atividades fora desta cena sem nenhum preconceito. Acredito que o rock é mais do que um estilo musical: é um estilo de vida, independente das ideologias! Desde o começo da criação do nosso instituto sempre quis usar a experiência e meus conhecimentos dentro da área musical a favor desse trabalho. Vejo a música como um grande instrumento de contestação, que mexe com sentimentos, idéias e pensamentos! O SuperAction Rock Night tem por objetivo divulgar o trabalho de todos os envolvidos de maneira séria e profissional, além de fazer uma noite de confraternização regada a muito rock'n'roll e um apelo social, já que a proposta também é levantar fundos e mostrar o trabalho do INSAT. Neste primeiro evento contaremos com as bandas Heavenly Kingdom, No Sense, Forka, Chaosfear e The Four Horsemen. E também com a presença especial de Marcello Pompeu, vocalista do Korzus. Todos aceitaram o convite de imediato e se colocaram à disposição para ajudar no que for possível, abrindo mão de cachê e refazendo suas agendas para estar disponível no dia.

De que forma as pessoas podem ajudar o Instituto?
Para aqueles que quiserem nos ajudar de alguma maneira, por favor visite a nossa página www.insat.org.br e conheçam melhor nossos propósitos e objetivos. No momento buscamos parceiros para a fabricação do nosso material de divulgação (banners, folder, panfletos). Em breve vamos disponibilizar uma conta bancária para qualquer tipo de doação financeira. Independente do aspecto da ajuda material, contamos com o apoio de todos com vibrações positivas, energia vital nos dando força para nunca desistirmos da nossa batalha!

(Leia a entrevista completa na versão impressa da Comando Rock que já está nas bancas)

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