SEPULTURA
A LARANJA SEM LEI
Depois de lançar o álbum Dante XXI
(2006) inspirado na obra A Divina Comédia,
de Dante Alighieri, a banda mineira coloca no mercado o
CD A-Lex, novamente tendo como base um livro, sendo
desta vez Laranja Mecânica, de Anthony Burgess
Marcos Filippi
Em 2005, o Sepultura enfrentava
mais uma "crise" interna. O baterista Igor Cavalera,
um dos fundadores do conjunto, dava sinais de que sua trajetória
dentro do grupo nacional de rock mais importante de todos
os tempos no Exterior estava chegando ao fim. Sem muita
empolgação em tocar metal, vivendo problemas
pessoais - estava se separando de sua primeira esposa -
e mostrando cada vez mais interessado em seu projeto de
música eletrônica, o baterista precisava de
uma "injeção de ânimo" dos
seus companheiros de banda para compor o novo álbum
de estúdio.
Este estímulo foi pegar uma obra
mundialmente famosa para servir de base do novo trabalho.
O guitarrista Andreas Kisser sugeriu o livro Laranja
Mecânica, do escritor inglês Anthony Burgess,
de 62. O vocalista Derrick Green trouxe como opção
A Divina Comédia, do italiano Dante Alighieri.
Prevaleceu a idéia indicada pelo vocalista norte-americano.
No ano seguinte, foi lançado o disco Dante XXI.
Apesar de ter sido um trabalho importante para o grupo,
que voltou a fazer shows no Exterior com mais regularidade,
não serviu para "prender" Igor no Sepultura,
que decidiu deixar a banda logo após o lançamento
do CD e, meses mais tarde, voltar a tocar com o irmão
Max Cavalera depois de mais de dez anos no projeto Cavalera
Conspiracy.
Três anos mais tarde, a idéia
sugerida por Andreas saiu da "gaveta" e serviu
como base para virar o novo disco de estúdio do conjunto:
A-Lex ("Sem Lei", em latim), lançado
no Brasil pela Atração Fonográfica
e no Exterior pela SPV. As 18 canções do novo
CD, assim como ocorreu em Dante XXI, também
foram divididas em capítulos. As três primeiras
partes falam do enredo que ficou conhecido internacionalmente
graças ao clássico filme homônimo ao
livro, dirigido por Stanley Kubrick, em 71: contam a história
do personagem Alex De Large - um fictício adolescente
de 15 anos, amante de música clássica, sexo
e violência extrema que, junto com sua gangue, barbariza
a sociedade. Alex é traído pelos companheiros,
vai parar na prisão por vários anos, vive
um "inferno" pessoal durante todo este período,
é submetido a terapias experimentais para que deixasse
de lado seu fascínio pela violência, sexo e
tudo mais que amava e tenta cometer suicídio.
O último capítulo do álbum
apresenta o final do livro escrito por Burguess e "ignorado"
por Kubrick em seu filme. Alex é abandonado por todos
e sua situação se reverte com a ajuda de uma
das vítimas de sua crueldade. "O capítulo
final é quando nos questionamos se temos ou não
livre escolha. Vivemos tão controlados por religião,
pecados e nos impõem tantos limites antes mesmo de
nascermos. Aí é muito difícil nos libertamos
disso tudo. E todo mundo faz besteira durante a adolescência,
pois nós só aprendemos mesmo na base da porrada.
Mas, ao passar por todos aqueles experimentos, Alex se torna
ainda pior do que era antes e só se cura após
a tentativa de suicídio. O personagem só se
torna uma pessoa melhor sem a imposição por
parte das instituições que o tentavam controlar
anteriormente", explica Andreas.
A-Lex, produzido em conjunto pela banda
e por Stanley Soares, é o primeiro trabalho do Sepultura
com o novo baterista Jean Dolabella (ex-Udora), que se integrou
o grupo durante a turnê do álbum Dante XXI
entrando no lugar de Roy Mayorga (Roy havia sido "contratado"
pelo grupo logo após a saída de Igor, mas
apenas para alguns shows pois o mesmo estava entrando no
Stone Sour).
O destaque do novo trabalho, que já
vendeu cinco mil cópias no Brasil somente no mês
de seu lançamento, é a faixa "Ludwig
Van". A canção é uma espécie
de "Nona Sinfonia" de Beethoven thrash metal e
que contou com a participação de uma orquestra
sinfônica de São Paulo.
Em entrevista exclusiva a Comando Rock,
poucos dias antes da banda embarcar para a Europa para uma
excursão de um mês, o guitarrista Andreas Kisser
falou da idéia de pegar o livro Laranja Mecânica
para servir de base do novo álbum, a decisão
da banda a voltar a fazer novamente um trabalho conceitual,
os reais motivos que levaram Igor a deixar o grupo, a entrada
de Jean Dolabella, seu primeiro disco solo que deve ser
lançado no meio deste ano, seu projeto Hail - que
conta o vocalista Tim "Ripper" Owens, o baterista
Jimmy Degrasso e o baixista David Ellefson - seu programa
de tevê que pode estrear no canal Multishow, rebateu
as recentes acusações de Max Cavalera de que
a banda nunca gostou do filme Laranja Mecânica,
esclareceu os boatos que envolviam a volta do Sepultura
com sua formação clássica e garantiu
que isso não deverá ocorrer (pelo menos num
futuro próximo) e os projetos para celebrar os 25
anos de carreira do Sepultura, que serão completados
este ano.
(Leia a entrevista completa na versão impressa da
Comando Rock que já está nas bancas)
