Edição #49

COMANDO SOLIDÁRIO: BANCO DE ALIMENTOS
REDISTRIBUINDO VIDA

ONG diminui a fome em São Paulo distribuindo alimentos em mais de 50 instituições

Paula Fabri

Que milhões de pessoas passam fome no mundo não é novidade para ninguém. Desde sempre há diferença entre as classes sociais e nos deparamos diariamente com isso, seja aqui no Brasil ou no Exterior, nos grandes centros ou no Interior. Campanhas contra ela são comuns de se ver, sejam grandes festivais de música ou arrecadações em colégios.

Ultimamente a preocupação com esse assunto vem crescendo com o aumento dos preços dos alimentos no mundo inteiro e indícios de uma futura escassez de comida. Procurando contornar esse problema e, ao mesmo tempo, reeducar a sociedade quanto ao consumo correto de alimentos, diversos projetos vêem sendo criados. Um bom exemplo disso é a ONG Banco de Alimentos. Criada em 98, a entidade trabalha para combater o desperdício de alimentos, educar a população e minimizar a fome redistribuindo alimentos doados (de acordo com suas possibilidades) a mais de 50 instituições carentes.

Para saber mais sobre essa iniciativa a Comando Rock falou com a idealizadora, fundadora e presidente do Banco de Alimentos, Luciana Chinaglia Quintão, e com a coordenadora operacional da ONG, Isabel Marçal, que contaram maiores detalhes desse trabalho que vem ganhando reconhecimento a cada dia que passa, além de dicas para diminuir o desperdício de alimentos em casa.

Comando Rock: Como e quando surgiu a idéia de criar o Banco de Alimentos?
Luciana Chinaglia Quintão: Meu trabalho nasceu pelas minhas experiências, vivências e observações que me levaram à consciência de que somos responsáveis por tudo que está à nossa volta. Somos nós mesmos, que através de nossos atos, criamos a realidade dentro da nossa casa, dos nossos relacionamentos, nossa comunidade, cidade, país, continente e planeta. Não se trata mais só de mim ou você ou daquele outro: é a humanidade como um todo que está em questão. No meu entender, estamos vivendo num limiar. É uma época de tomada de consciência. É a quantidade e a qualidade das pessoas que tomarem consciência que darão a chance ao mundo de subsistirmos com paz dentro de um planeta preservado. Hoje em dia não ter esta percepção já significa pactuar, mesmo que passivamente, com toda a destruição dos seres humanos e da natureza que vemos. É uma questão de escolha, do amor pela vida.

E qual o objetivo de vocês?
Isabel Marçal: Minimizar os efeitos da fome e combater o desperdício de alimentos, promover ações educativas e profiláticas voltadas às comunidades atendidas e expandir nossas ações e conhecimentos para fora das áreas circunscritas onde existe o problema concreto da fome para atingir à sociedade como um todo no sentido de promover uma mudança de cultura permanente, incentivando a ação através da educação.

Como é a forma de trabalho da ONG?
Isabel Marçal: Realizamos o trabalho de "colheita urbana" e distribuímos para instituições filantrópicas. Alimentos, que teriam o lixo como destino, são a matéria prima do nosso trabalho. Recebemos as doações e encaminhamos para as 51 instituições cadastradas conosco, que atendem aproximadamente 22 mil pessoas, entre crianças, adolescentes, idosos, portadores de deficiências físicas e mentais, portadores de patologias como AIDS, câncer e doenças cardiovasculares, moradores de rua, isto é pessoas não economicamente ativas e com risco alimentar. Também ministramos cursos, palestras, workshops e oficinas culinárias promovendo ações educativas e profiláticas voltadas às comunidades atendidas, onde ensinamos a manipular e aproveitar integralmente os alimentos e a consumi-los adequadamente a fim de ajudar a combater a desnutrição e subnutrição.

E como funciona exatamente essa "colheita urbana"?
Isabel Marçal: Colheita urbana é a arrecadação de sobras de comercialização e/ou excedentes de produção de alimentos (alimentos in natura, alimentos perecíveis e não-perecíveis dentro do prazo de validade, ensacados e não violados) e que estejam próprios para o consumo de vários tipos de estabelecimentos como hortifrutis, padarias, sacolões, supermercados, produtores, indústrias alimentícias etc. As doações são recolhidas pelo motorista acompanhado de um ajudante treinados periodicamente para suas funções em veículos adequados para o transporte de alimentos (isolamento térmico e/ou refrigeração) e a seleção dos produtos alimentícios é feita no próprio local de origem das doações.

Como as instituições que recebem os alimentos de vocês são escolhidas?
Isabel Marçal: Para ser incluída na nossa lista de entidade receptora a instituição tem de entrar em contato com nossa organização, por meio de telefone ou e-mail, para solicitação de um cadastro. Uma ficha inicial deve ser preenchida para uma pré-seleção, algo como um pré-cadastramento onde a entidade entra em uma lista de espera (atualmente contendo 200 instituições), com dados referentes a localização, contatos, alimentos de maior necessidade para doação, público atendido, número de institucionalizados, quantidade de refeições realizadas no local, entre outros.

A questão mais importante no caso seria a conscientização da sociedade. Como essa questão se pode trabalhada?
Isabel Marçal: A fim de trazer a luz para crianças, adolescentes e jovens (cidadãos do amanhã), a questão da responsabilidade de cada um na construção do mundo e de sua interligação com outras pessoas e o meio ambiente; do respeito à humanidade e à natureza; do fim do preconceito, da importância do desenvolvimento auto-sustentável para preservação da vida incentivando-os ao questionamento, a ONG desenvolveu um projeto pedagógico para crianças e adolescentes do ensino básico e fundamental, ou seja, do maternal ao terceiro ano do Ensino Médio sob a idéia original e supervisão da presidente e fundadora, Luciana Chinaglia Quintão. Segundo Luciana os objetivos deste projeto são realizar a ponte entre os "dois Brasis" e mudar a cultura da sociedade através da educação. Além disso, há seis anos temos uma parceria com o Centro Universitário São Camilo. Isso permite que alunos do último ano do Curso de Nutrição realizem estágio curricular, desenvolvendo trabalhos e pesquisas científicas, tais como avaliações antropométricas (técnicas utilizadas para medir o corpo humano ou suas partes) da população atendida para traçar intervenções nutricionais para a melhoria do estado nutricional do povo.

Há algumas semanas li no jornal sobre pessoas que praticam o freeganismo (um tipo de veganismo), isto é, elas mesmas têm procurado seus alimentos nos lixos. Você aconselha esse ato?
Isabel Marçal: Em relação ao freeganismo, não recomendamos essa ação, pois os alimentos que já tiveram o lixo como destino provavelmente estarão impróprios para o consumo humano por estarem contaminados. Isso poderá acarretar graves conseqüências a sua saúde.

Quem se interessar pelo trabalho que fazem pode colaborar de que forma (voluntariado, doações de dinheiro e alimentos)?
Isabel Marçal: As pessoas que se interessarem pelo trabalho desenvolvido e queiram participar da ação como voluntário, doador de alimentos ou contribuinte basta entrar em contato pelo nosso website www.bancodealimentos.org.br ou pelo telefone (11) 2198-8000.

O Banco de Alimentos tem planos para expandir a ONG para cidades do Brasil?
Isabel Marçal: Atualmente existe a possibilidade de expansão da operação de colheita urbana, mas para tal há a necessidade de novas parcerias.

Quais as principais dicas que vocês dão para diminuir o desperdício em casa?
Isabel Marçal: Lembrando que todas as cascas, talos e folhas podem ser utilizados da mesma maneira que os hortifrutis.
§ Os talos de couve, agrião, beterraba, brócolis e salsa, entre outros, contém fibras e devem ser aproveitados em refogados, no feijão e na sopa;
§ Não jogue fora os talos do agrião, pois eles contêm muitas vitaminas. Limpe, pique e refogue com tempero e ovos batidos;
§ As folhas da cenoura são ricas em vitamina A e devem ser aproveitadas para fazer bolinhos, sopas ou picadinhos em saladas. O mesmo pode se dizer das folhas duras da salsa;
§ A água do cozimento das batatas acaba concentrando todas as vitaminas. Aproveite-a, juntando leite em pó e manteiga para fazer purê;
§ As cascas da batata, depois de bem lavadas, podem ser fritas em óleo quente e servidas como aperitivo;
§ A casca da laranja fresca pode ser usada em pratos doces à base de leite, como arroz doce e cremes;
§ A parte branca da melancia pode ser usada para fazer doce, que se prepara como o doce de mamão verde;
§ Com as cascas das frutas (ex: goiaba, abacaxi, etc), pode-se preparar sucos batendo-as no liquidificador. Este suco pode ser aproveitado para substituir ingredientes líquidos no preparo de bolos;
§ Cozinhe as verduras a vapor, assim elas não perderão o valor nutritivo;
§ Quando for ralar a casca do limão, nunca chegue à parte branca, pois ela é amarga e pode prejudicar o sabor doce da preparação.
Importante: evite consumir folhas com aparência amarelada.

(Leia a entrevista completa na versão impressa da Comando Rock que já está nas bancas)

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