COMANDO SOLIDÁRIO: BANCO DE ALIMENTOS
REDISTRIBUINDO VIDA
ONG diminui a fome em São Paulo distribuindo alimentos
em mais de 50 instituições
Paula Fabri
Que milhões de pessoas
passam fome no mundo não é novidade para ninguém.
Desde sempre há diferença entre as classes
sociais e nos deparamos diariamente com isso, seja aqui
no Brasil ou no Exterior, nos grandes centros ou no Interior.
Campanhas contra ela são comuns de se ver, sejam
grandes festivais de música ou arrecadações
em colégios.
Ultimamente a preocupação
com esse assunto vem crescendo com o aumento dos preços
dos alimentos no mundo inteiro e indícios de uma
futura escassez de comida. Procurando contornar esse problema
e, ao mesmo tempo, reeducar a sociedade quanto ao consumo
correto de alimentos, diversos projetos vêem sendo
criados. Um bom exemplo disso é a ONG Banco de Alimentos.
Criada em 98, a entidade trabalha para combater o desperdício
de alimentos, educar a população e minimizar
a fome redistribuindo alimentos doados (de acordo com suas
possibilidades) a mais de 50 instituições
carentes.
Para saber mais sobre essa iniciativa
a Comando Rock falou com a idealizadora, fundadora
e presidente do Banco de Alimentos, Luciana Chinaglia Quintão,
e com a coordenadora operacional da ONG, Isabel Marçal,
que contaram maiores detalhes desse trabalho que vem ganhando
reconhecimento a cada dia que passa, além de dicas
para diminuir o desperdício de alimentos em casa.
Comando
Rock: Como e quando surgiu a idéia de criar o Banco
de Alimentos?
Luciana Chinaglia Quintão: Meu trabalho
nasceu pelas minhas experiências, vivências
e observações que me levaram à consciência
de que somos responsáveis por tudo que está
à nossa volta. Somos nós mesmos, que através
de nossos atos, criamos a realidade dentro da nossa casa,
dos nossos relacionamentos, nossa comunidade, cidade, país,
continente e planeta. Não se trata mais só
de mim ou você ou daquele outro: é a humanidade
como um todo que está em questão. No meu entender,
estamos vivendo num limiar. É uma época de
tomada de consciência. É a quantidade e a qualidade
das pessoas que tomarem consciência que darão
a chance ao mundo de subsistirmos com paz dentro de um planeta
preservado. Hoje em dia não ter esta percepção
já significa pactuar, mesmo que passivamente, com
toda a destruição dos seres humanos e da natureza
que vemos. É uma questão de escolha, do amor
pela vida.
E
qual o objetivo de vocês?
Isabel Marçal: Minimizar os efeitos
da fome e combater o desperdício de alimentos, promover
ações educativas e profiláticas voltadas
às comunidades atendidas e expandir nossas ações
e conhecimentos para fora das áreas circunscritas
onde existe o problema concreto da fome para atingir à
sociedade como um todo no sentido de promover uma mudança
de cultura permanente, incentivando a ação
através da educação.
Como
é a forma de trabalho da ONG?
Isabel Marçal: Realizamos o trabalho
de "colheita urbana" e distribuímos para
instituições filantrópicas. Alimentos,
que teriam o lixo como destino, são a matéria
prima do nosso trabalho. Recebemos as doações
e encaminhamos para as 51 instituições cadastradas
conosco, que atendem aproximadamente 22 mil pessoas, entre
crianças, adolescentes, idosos, portadores de deficiências
físicas e mentais, portadores de patologias como
AIDS, câncer e doenças cardiovasculares, moradores
de rua, isto é pessoas não economicamente
ativas e com risco alimentar. Também ministramos
cursos, palestras, workshops e oficinas culinárias
promovendo ações educativas e profiláticas
voltadas às comunidades atendidas, onde ensinamos
a manipular e aproveitar integralmente os alimentos e a
consumi-los adequadamente a fim de ajudar a combater a desnutrição
e subnutrição.
E
como funciona exatamente essa "colheita urbana"?
Isabel Marçal: Colheita urbana é
a arrecadação de sobras de comercialização
e/ou excedentes de produção de alimentos (alimentos
in natura, alimentos perecíveis e não-perecíveis
dentro do prazo de validade, ensacados e não violados)
e que estejam próprios para o consumo de vários
tipos de estabelecimentos como hortifrutis, padarias, sacolões,
supermercados, produtores, indústrias alimentícias
etc. As doações são recolhidas pelo
motorista acompanhado de um ajudante treinados periodicamente
para suas funções em veículos adequados
para o transporte de alimentos (isolamento térmico
e/ou refrigeração) e a seleção
dos produtos alimentícios é feita no próprio
local de origem das doações.
Como
as instituições que recebem os alimentos de
vocês são escolhidas?
Isabel Marçal: Para ser incluída
na nossa lista de entidade receptora a instituição
tem de entrar em contato com nossa organização,
por meio de telefone ou e-mail, para solicitação
de um cadastro. Uma ficha inicial deve ser preenchida para
uma pré-seleção, algo como um pré-cadastramento
onde a entidade entra em uma lista de espera (atualmente
contendo 200 instituições), com dados referentes
a localização, contatos, alimentos de maior
necessidade para doação, público atendido,
número de institucionalizados, quantidade de refeições
realizadas no local, entre outros.
A
questão mais importante no caso seria a conscientização
da sociedade. Como essa questão se pode trabalhada?
Isabel Marçal: A fim de trazer a luz
para crianças, adolescentes e jovens (cidadãos
do amanhã), a questão da responsabilidade
de cada um na construção do mundo e de sua
interligação com outras pessoas e o meio ambiente;
do respeito à humanidade e à natureza; do
fim do preconceito, da importância do desenvolvimento
auto-sustentável para preservação da
vida incentivando-os ao questionamento, a ONG desenvolveu
um projeto pedagógico para crianças e adolescentes
do ensino básico e fundamental, ou seja, do maternal
ao terceiro ano do Ensino Médio sob a idéia
original e supervisão da presidente e fundadora,
Luciana Chinaglia Quintão. Segundo Luciana os objetivos
deste projeto são realizar a ponte entre os "dois
Brasis" e mudar a cultura da sociedade através
da educação. Além disso, há
seis anos temos uma parceria com o Centro Universitário
São Camilo. Isso permite que alunos do último
ano do Curso de Nutrição realizem estágio
curricular, desenvolvendo trabalhos e pesquisas científicas,
tais como avaliações antropométricas
(técnicas utilizadas para medir o corpo humano ou
suas partes) da população atendida para traçar
intervenções nutricionais para a melhoria
do estado nutricional do povo.
Há
algumas semanas li no jornal sobre pessoas que praticam
o freeganismo (um tipo de veganismo), isto é, elas
mesmas têm procurado seus alimentos nos lixos. Você
aconselha esse ato?
Isabel Marçal: Em relação
ao freeganismo, não recomendamos essa ação,
pois os alimentos que já tiveram o lixo como destino
provavelmente estarão impróprios para o consumo
humano por estarem contaminados. Isso poderá acarretar
graves conseqüências a sua saúde.
Quem
se interessar pelo trabalho que fazem pode colaborar de
que forma (voluntariado, doações de dinheiro
e alimentos)?
Isabel Marçal: As pessoas que se interessarem
pelo trabalho desenvolvido e queiram participar da ação
como voluntário, doador de alimentos ou contribuinte
basta entrar em contato pelo nosso website www.bancodealimentos.org.br
ou pelo telefone (11) 2198-8000.
O
Banco de Alimentos tem planos para expandir a ONG para cidades
do Brasil?
Isabel Marçal: Atualmente existe a
possibilidade de expansão da operação
de colheita urbana, mas para tal há a necessidade
de novas parcerias.
Quais
as principais dicas que vocês dão para diminuir
o desperdício em casa?
Isabel Marçal: Lembrando que todas
as cascas, talos e folhas podem ser utilizados da mesma
maneira que os hortifrutis.
§ Os talos de couve, agrião, beterraba, brócolis
e salsa, entre outros, contém fibras e devem ser
aproveitados em refogados, no feijão e na sopa;
§ Não jogue fora os talos do agrião,
pois eles contêm muitas vitaminas. Limpe, pique e
refogue com tempero e ovos batidos;
§ As folhas da cenoura são ricas em vitamina
A e devem ser aproveitadas para fazer bolinhos, sopas ou
picadinhos em saladas. O mesmo pode se dizer das folhas
duras da salsa;
§ A água do cozimento das batatas acaba concentrando
todas as vitaminas. Aproveite-a, juntando leite em pó
e manteiga para fazer purê;
§ As cascas da batata, depois de bem lavadas, podem
ser fritas em óleo quente e servidas como aperitivo;
§ A casca da laranja fresca pode ser usada em pratos
doces à base de leite, como arroz doce e cremes;
§ A parte branca da melancia pode ser usada para fazer
doce, que se prepara como o doce de mamão verde;
§ Com as cascas das frutas (ex: goiaba, abacaxi, etc),
pode-se preparar sucos batendo-as no liquidificador. Este
suco pode ser aproveitado para substituir ingredientes líquidos
no preparo de bolos;
§ Cozinhe as verduras a vapor, assim elas não
perderão o valor nutritivo;
§ Quando for ralar a casca do limão, nunca chegue
à parte branca, pois ela é amarga e pode prejudicar
o sabor doce da preparação.
Importante: evite consumir folhas com aparência amarelada.
(Leia a entrevista completa na versão impressa da
Comando Rock que já está nas bancas)
