Edição #42

COMANDO SOLIDÁRIO: ADERE
AJUDANDO A CONSTRUIR UM MUNDO MAIS NORMAL

A instituição, fundada há mais de 35 anos, ajuda portadores de deficiências mentais a integrarem o mercado de trabalho

Malu Viotti

O adulto com deficiência mental sempre sofreu preconceito na sociedade, seja por medo, ignorância, mas principalmente pela desinformação. Isso vem mudando através de projetos como a ADERE (Associação Para o Desenvolvimento, Educação e Recuperação do Excepcional), instituição que há mais de 35 anos vem fazendo a inclusão social de portadores de deficiências. Criada por um grupo de pais de deficientes mentais, a ADERE surgiu como um projeto pequeno. Hoje, conta com 72 aprendizes (como são chamados os excepcionais). Essa inclusão é feita através do trabalho manual em marcenaria, papel reciclado e tecelagem, a prática de esportes, música e teatro.

Além disso, a instituição leva os aprendizes em excursões para museus e exposições, supervisionados por psicólogos e profissionais treinados na área. O deficiente mental adulto precisa de supervisão 24 horas por dia. É como se fosse uma eterna criança em diversos aspectos. Mas isso não faz deles menos capazes de realizar trabalhos tão bons quanto o das pessoas "normais" e a falta de conhecimento faz com que desconheçamos esta capacidade.

Atualmente isso vem mudando, mas muito gradualmente. Novelas e campanhas publicitárias de inclusão do deficiente vem ajudando a conscientizar um pouco mais a sociedade. Mas, infelizmente, em nosso País é preciso que exista uma lei que obrigue os empresários a contratar deficientes, para que sejam inclusos no mercado de trabalho.

A instituição hoje é uma instituição de primeiro mundo e conta com uma estrutura muito cara, por isso precisa de muita ajuda. Dona Grimalina Abs Musa, de 80 anos, presidente e fundadora da ADERE, nos recebeu e explicou um pouco como funciona a instituição, quais são os objetivos e, principalmente, o quanto de ajuda precisam.

Comando Rock: Como surgiu a idéia de montar a ADERE?
Grimalina Abs Musa: A idéia inicial da ADERE era de ser somente uma oficina ocupacional. Estávamos em 72 e não existia em São Paulo uma assistência ao adulto com deficiência mental. Em uma reunião dentro de uma escola de estimulação, eu e alguns pais nos conscientizamos de que tínhamos toda a assistência para nossos filhos, que eram crianças, mas que estas iriam crescer e ter suas necessidades. Elas teriam de ter alguma coisa que as motivasse. Assim nasceu a idéia de se fazer uma oficina. As atividades iniciais eram ligadas a marcenaria, mas sem o uso de máquinas, somente trabalho manual. E, à medida que as coisas foram se sedimentando, observamos outras necessidades para eles, que não só o trabalho. Como são deficientes, não agüentam ficar em uma atividade só por oito horas. Havia a necessidade de intercalar trabalho com lazer. Por isso, contratamos professores de educação física, música etc, e hoje temos uma proposta que não se limita ao trabalho.

Então quando a ADERE surgiu não havia essa função social que há hoje?
Inicialmente, foi mesmo uma assistência para os nossos filhos excepcionais. Mas, mesmo no grupo, já havia pessoas que não podiam arcar com a despesa e nós dividíamos os custos. Mas, conforme foi se divulgando a existência da ADERE, apareceram outras pessoas que não eram do grupo e que tinham filhos deficientes já em idade de ter uma assistência daquele tipo. Assim, abrimos espaço para as pessoas carentes e foi aí que começou a função social da ADERE. Então, pleiteamos utilidade pública, estadual, municipal, federal e hoje temos muito mais carentes do que pagantes. Atualmente, das 72 pessoas que freqüentam a ADERE, somente 18 pagam o valor integral, alguns dão contribuições e 50 não pagam absolutamente nada.

Há uma lei que obriga as empresas privadas de São Paulo, com mais de cem funcionários, a contratar 5% de deficientes. Como a senhora vê a procura pelo deficiente mental?
Embora sejam obrigadas por lei, apenas 49,6% das empresas privadas de São Paulo, com cem ou mais funcionários, contratam pessoas com deficiência. Nós aqui temos esse objetivo, o da inclusão do deficiente no mercado. Mas é muito difícil, depende muito do nível mental de cada um. Mas o limítrofe tem condições de fazer muita coisa, mas sempre supervisionado por alguém. Eles não podem assumir sozinhos uma atividade, pois toda vez que tiverem de escolher alguma coisa, não serão capazes. São pessoas que precisam de assistência 24 horas por dia. E é sempre por último que o empregador pensa em ter um deficiente mental trabalhando. E, normalmente, é por falta de conhecimento. Eles desconhecem o quanto eles são capazes. Existe uma confusão muito grande. Alguns ligam aqui e perguntam "mas é deficiente, é doente?". Atualmente colocamos cinco deles no mercado de trabalho. Damos toda a supervisão inicial, treinamos e a pessoa que dá o emprego pode sempre nos procurar para conversar.

Como vocês fazem para que o trabalho deles seja reconhecido?
Fazemos as pessoas terem conhecimento do nosso trabalho vendendo os produtos que eles fazem. Chegamos a um ponto onde os produtos são tão bem feitos que competem com os feitos pelas pessoas normais. Temos diversos produtos, feitos com cipó, papel reciclado, tecelagem, reciclagem e estamos sempre à procura de coisas novas para que eles ampliem o campo de ação. Os produtos normalmente são vendidos em bazares e algumas lojas os compram e revendem. Um de nossos aprendizes, o Fred, é uma pessoa que, além de deficiente mental, é deficiente auditivo e visual. E, no entanto, pinta maravilhosamente bem, é um artista. Seu trabalho já foi capa de diversos cadernos da Tilibra.

Quem pode ser um aprendiz?
Toda pessoa que for deficiente mental e que tiver capacidade para cuidar de si, quer dizer, ir ao banheiro e comer sozinho. Esta é a única exigência que fazemos. A idade inicial é de 16 anos, por causa de nossas leis trabalhistas, mas não há limite de idade. Os aprendizes entram às 8h e saem às 17h, tomam café da manha, almoçam e tomam um lanche antes de ir embora.

Que atividades de lazer são realizadas?
As atividades de recreação são de extrema importância para qualquer um de nós. É preciso desanuviar a atenção do trabalho e fazer algum tipo de atividade física, pois não é saudável ficar muito tempo sentando fazendo uma só atividade. Nas aulas de educação física, eles aprendem a jogar futebol, basquete, fazem alongamento, temos teatro, coral, aula de música e percussão. Isso é muito bom e importante. Além disso, participam muito da vida social. Realizamos excursões a museus, exposições, onde monitores explicam tudo a eles. Ou seja, eles têm cultura e informação, às vezes mais que uma pessoa normal.

Que tipo de doação a ADERE mais precisa?
A ADERE cresceu muito e, hoje em dia, tem uma estrutura muito cara. Não temos capital de giro e é muito difícil de nos manter porque não temos nenhuma fonte de renda. Existem diversas maneiras de ajudar a ADERE e realmente, precisamos de ajuda. Existe um projeto chamado "Adote um Aprendiz" em que normalmente pessoas jurídicas pagam o custo mensal de uma pessoa, que é de R$ 1.340,00. A ADERE conta também com doações de valor menor, sendo o mínimo R$ 15,00. Fora o valor em dinheiro, é possível doar qualquer tipo de coisa, desde materiais recicláveis até comida, roupas e móveis. Em suma, aceitamos qualquer coisa! O que muita gente desconhece é que é possível doar sem tirar a mão do bolso. Existe uma lei que determina que as pessoas físicas podem doar 6% do imposto devido. A doação tem de ser feita através do Fundo dos Direitos da Criança e do Adolescente (FUNCAD) e a pessoa que ajuda obtém um recibo que pode ser descontado do imposto de renda. Assim, a pessoa doa aquilo que ela vai pagar. No site do FUNCAD existe uma lista de instituições registradas e a ADERE está lá com alguns projetos. Algo muito importante também é a doação de materiais de limpeza e higiene. Algumas pessoas e escolas se organizam para coletar esse tipo de material para nós, mas ainda é preciso muito. Comida a mesma coisa. Assim, pode-se economizar nestes tipos de gastos para poder receber mais pessoas que necessitam de nosso serviço.

Que tipo de projeto a ADERE apresentou ao FUNCAD?
Um dos projetos é a inclusão de pessoas em situação de risco, que moram na rua, dentro da ADERE. A idéia é misturá-los junto aos nossos deficientes e exigir que eles estivessem freqüentando a escola num período e, em outro, ao invés de ficar na rua, vinham para cá e nos ajudavam. Já tivemos esse tipo de experiência aqui e um rapaz gostou da marcenaria e hoje trabalha aqui, é registrado. Outros arrumaram empregos fora daqui, porque dávamos um diploma nosso. Aí, apresentamos outro projeto que as pessoas aqui precisavam muito. Eles não sabem os direitos que tem o deficiente mental. E quando morre o pai, a mãe, acontecem coisas absurdas, pois aquele individuo é quase um inexistente na família. Tem gente que tem o filho já em idade adulta e ele não tem uma carteira de identidade. E tem mais: na divisão de bens da família, por exemplo, como é que entra essa pessoa? Porque ela não pode ser excluída. Então, tudo isso eles não sabem. E nos dois projetos apresentados, nós só recebemos uma doação.

Como ser um voluntário da ADERE?
A ADERE precisa muito de voluntários. Nossas voluntárias estão muito velhinhas, temos uma senhora de 86 anos que não tem mais a possibilidade de organizar um evento. Precisamos de jovens que venham com energia para nos ajudar a organizar eventos, como bingos, chás e bazares, além de angariar doações. Precisamos de voluntários mais novos e com novas idéias!

Em sua opinião como o deficiente mental adulto é visto hoje na sociedade?
Antigamente ninguém queria nem chegar perto do deficiente. As pessoas tinham medo. Ninguém cuidava muito do excepcional, ele ficava dentro da família. Hoje isso mudou. Antes de nascer a mãe já fica sabendo que o filho é deficiente e conta com o apoio e a orientação de médicos e profissionais especializados. Eles orientam a mãe que o excepcional precisa ser bem educado, para que ele seja aceito. E isso vale para pessoas normais também. Uma pessoa normal sem educação é rejeitada! Mas isso tudo depende muito da postura da família em relação ao deficiente. Por isso, temos na ADERE não só o apoio psicológico aos aprendizes, mas também a família, principalmente aquele que é carente. Estes precisam muito mais. O erro está na desinformação.

Como a senhora define a ADERE hoje.
A ADERE é hoje uma instituição de primeiro mundo dentro deste País de terceiro mundo. Temos muito orgulho e achamos nosso trabalho muito honesto, muito bem feito. Estamos abertos a quem quiser conhecer nosso trabalho e nos visitar.

(Leia a entrevista completa na versão impressa da Comando Rock que já está nas bancas)

Voltar