COMANDO
SOLIDÁRIO: ADERE
AJUDANDO A CONSTRUIR UM MUNDO MAIS NORMAL
A
instituição, fundada há mais de 35
anos, ajuda portadores de deficiências mentais a integrarem
o mercado de trabalho
Malu
Viotti
O
adulto com deficiência mental sempre sofreu preconceito
na sociedade, seja por medo, ignorância, mas principalmente
pela desinformação. Isso vem mudando através
de projetos como a ADERE (Associação Para
o Desenvolvimento, Educação e Recuperação
do Excepcional), instituição que há
mais de 35 anos vem fazendo a inclusão social de
portadores de deficiências. Criada por um grupo de
pais de deficientes mentais, a ADERE surgiu como um projeto
pequeno. Hoje, conta com 72 aprendizes (como são
chamados os excepcionais). Essa inclusão é
feita através do trabalho manual em marcenaria, papel
reciclado e tecelagem, a prática de esportes, música
e teatro.
Além
disso, a instituição leva os aprendizes em
excursões para museus e exposições,
supervisionados por psicólogos e profissionais treinados
na área. O deficiente mental adulto precisa de supervisão
24 horas por dia. É como se fosse uma eterna criança
em diversos aspectos. Mas isso não faz deles menos
capazes de realizar trabalhos tão bons quanto o das
pessoas "normais" e a falta de conhecimento faz
com que desconheçamos esta capacidade.
Atualmente
isso vem mudando, mas muito gradualmente. Novelas e campanhas
publicitárias de inclusão do deficiente vem
ajudando a conscientizar um pouco mais a sociedade. Mas,
infelizmente, em nosso País é preciso que
exista uma lei que obrigue os empresários a contratar
deficientes, para que sejam inclusos no mercado de trabalho.
A
instituição hoje é uma instituição
de primeiro mundo e conta com uma estrutura muito cara,
por isso precisa de muita ajuda. Dona Grimalina Abs Musa,
de 80 anos, presidente e fundadora da ADERE, nos recebeu
e explicou um pouco como funciona a instituição,
quais são os objetivos e, principalmente, o quanto
de ajuda precisam.
Comando
Rock: Como surgiu a idéia de montar a ADERE?
Grimalina Abs Musa: A idéia inicial
da ADERE era de ser somente uma oficina ocupacional. Estávamos
em 72 e não existia em São Paulo uma assistência
ao adulto com deficiência mental. Em uma reunião
dentro de uma escola de estimulação, eu e
alguns pais nos conscientizamos de que tínhamos toda
a assistência para nossos filhos, que eram crianças,
mas que estas iriam crescer e ter suas necessidades. Elas
teriam de ter alguma coisa que as motivasse. Assim nasceu
a idéia de se fazer uma oficina. As atividades iniciais
eram ligadas a marcenaria, mas sem o uso de máquinas,
somente trabalho manual. E, à medida que as coisas
foram se sedimentando, observamos outras necessidades para
eles, que não só o trabalho. Como são
deficientes, não agüentam ficar em uma atividade
só por oito horas. Havia a necessidade de intercalar
trabalho com lazer. Por isso, contratamos professores de
educação física, música etc,
e hoje temos uma proposta que não se limita ao trabalho.
Então
quando a ADERE surgiu não havia essa função
social que há hoje?
Inicialmente, foi mesmo uma assistência para os nossos
filhos excepcionais. Mas, mesmo no grupo, já havia
pessoas que não podiam arcar com a despesa e nós
dividíamos os custos. Mas, conforme foi se divulgando
a existência da ADERE, apareceram outras pessoas que
não eram do grupo e que tinham filhos deficientes
já em idade de ter uma assistência daquele
tipo. Assim, abrimos espaço para as pessoas carentes
e foi aí que começou a função
social da ADERE. Então, pleiteamos utilidade pública,
estadual, municipal, federal e hoje temos muito mais carentes
do que pagantes. Atualmente, das 72 pessoas que freqüentam
a ADERE, somente 18 pagam o valor integral, alguns dão
contribuições e 50 não pagam absolutamente
nada.
Há
uma lei que obriga as empresas privadas de São Paulo,
com mais de cem funcionários, a contratar 5% de deficientes.
Como a senhora vê a procura pelo deficiente mental?
Embora sejam obrigadas por lei, apenas 49,6% das empresas
privadas de São Paulo, com cem ou mais funcionários,
contratam pessoas com deficiência. Nós aqui
temos esse objetivo, o da inclusão do deficiente
no mercado. Mas é muito difícil, depende muito
do nível mental de cada um. Mas o limítrofe
tem condições de fazer muita coisa, mas sempre
supervisionado por alguém. Eles não podem
assumir sozinhos uma atividade, pois toda vez que tiverem
de escolher alguma coisa, não serão capazes.
São pessoas que precisam de assistência 24
horas por dia. E é sempre por último que o
empregador pensa em ter um deficiente mental trabalhando.
E, normalmente, é por falta de conhecimento. Eles
desconhecem o quanto eles são capazes. Existe uma
confusão muito grande. Alguns ligam aqui e perguntam
"mas é deficiente, é doente?". Atualmente
colocamos cinco deles no mercado de trabalho. Damos toda
a supervisão inicial, treinamos e a pessoa que dá
o emprego pode sempre nos procurar para conversar.
Como
vocês fazem para que o trabalho deles seja reconhecido?
Fazemos as pessoas terem conhecimento do nosso trabalho
vendendo os produtos que eles fazem. Chegamos a um ponto
onde os produtos são tão bem feitos que competem
com os feitos pelas pessoas normais. Temos diversos produtos,
feitos com cipó, papel reciclado, tecelagem, reciclagem
e estamos sempre à procura de coisas novas para que
eles ampliem o campo de ação. Os produtos
normalmente são vendidos em bazares e algumas lojas
os compram e revendem. Um de nossos aprendizes, o Fred,
é uma pessoa que, além de deficiente mental,
é deficiente auditivo e visual. E, no entanto, pinta
maravilhosamente bem, é um artista. Seu trabalho
já foi capa de diversos cadernos da Tilibra.
Quem
pode ser um aprendiz?
Toda pessoa que for deficiente mental e que tiver capacidade
para cuidar de si, quer dizer, ir ao banheiro e comer sozinho.
Esta é a única exigência que fazemos.
A idade inicial é de 16 anos, por causa de nossas
leis trabalhistas, mas não há limite de idade.
Os aprendizes entram às 8h e saem às 17h,
tomam café da manha, almoçam e tomam um lanche
antes de ir embora.
Que
atividades de lazer são realizadas?
As atividades de recreação são de extrema
importância para qualquer um de nós. É
preciso desanuviar a atenção do trabalho e
fazer algum tipo de atividade física, pois não
é saudável ficar muito tempo sentando fazendo
uma só atividade. Nas aulas de educação
física, eles aprendem a jogar futebol, basquete,
fazem alongamento, temos teatro, coral, aula de música
e percussão. Isso é muito bom e importante.
Além disso, participam muito da vida social. Realizamos
excursões a museus, exposições, onde
monitores explicam tudo a eles. Ou seja, eles têm
cultura e informação, às vezes mais
que uma pessoa normal.
Que
tipo de doação a ADERE mais precisa?
A ADERE cresceu muito e, hoje em dia, tem uma estrutura
muito cara. Não temos capital de giro e é
muito difícil de nos manter porque não temos
nenhuma fonte de renda. Existem diversas maneiras de ajudar
a ADERE e realmente, precisamos de ajuda. Existe um projeto
chamado "Adote um Aprendiz" em que normalmente
pessoas jurídicas pagam o custo mensal de uma pessoa,
que é de R$ 1.340,00. A ADERE conta também
com doações de valor menor, sendo o mínimo
R$ 15,00. Fora o valor em dinheiro, é possível
doar qualquer tipo de coisa, desde materiais recicláveis
até comida, roupas e móveis. Em suma, aceitamos
qualquer coisa! O que muita gente desconhece é que
é possível doar sem tirar a mão do
bolso. Existe uma lei que determina que as pessoas físicas
podem doar 6% do imposto devido. A doação
tem de ser feita através do Fundo dos Direitos da
Criança e do Adolescente (FUNCAD) e a pessoa que
ajuda obtém um recibo que pode ser descontado do
imposto de renda. Assim, a pessoa doa aquilo que ela vai
pagar. No site do FUNCAD existe uma lista de instituições
registradas e a ADERE está lá com alguns projetos.
Algo muito importante também é a doação
de materiais de limpeza e higiene. Algumas pessoas e escolas
se organizam para coletar esse tipo de material para nós,
mas ainda é preciso muito. Comida a mesma coisa.
Assim, pode-se economizar nestes tipos de gastos para poder
receber mais pessoas que necessitam de nosso serviço.
Que
tipo de projeto a ADERE apresentou ao FUNCAD?
Um dos projetos é a inclusão de pessoas em
situação de risco, que moram na rua, dentro
da ADERE. A idéia é misturá-los junto
aos nossos deficientes e exigir que eles estivessem freqüentando
a escola num período e, em outro, ao invés
de ficar na rua, vinham para cá e nos ajudavam. Já
tivemos esse tipo de experiência aqui e um rapaz gostou
da marcenaria e hoje trabalha aqui, é registrado.
Outros arrumaram empregos fora daqui, porque dávamos
um diploma nosso. Aí, apresentamos outro projeto
que as pessoas aqui precisavam muito. Eles não sabem
os direitos que tem o deficiente mental. E quando morre
o pai, a mãe, acontecem coisas absurdas, pois aquele
individuo é quase um inexistente na família.
Tem gente que tem o filho já em idade adulta e ele
não tem uma carteira de identidade. E tem mais: na
divisão de bens da família, por exemplo, como
é que entra essa pessoa? Porque ela não pode
ser excluída. Então, tudo isso eles não
sabem. E nos dois projetos apresentados, nós só
recebemos uma doação.
Como
ser um voluntário da ADERE?
A ADERE precisa muito de voluntários. Nossas voluntárias
estão muito velhinhas, temos uma senhora de 86 anos
que não tem mais a possibilidade de organizar um
evento. Precisamos de jovens que venham com energia para
nos ajudar a organizar eventos, como bingos, chás
e bazares, além de angariar doações.
Precisamos de voluntários mais novos e com novas
idéias!
Em
sua opinião como o deficiente mental adulto é
visto hoje na sociedade?
Antigamente ninguém queria nem chegar perto do deficiente.
As pessoas tinham medo. Ninguém cuidava muito do
excepcional, ele ficava dentro da família. Hoje isso
mudou. Antes de nascer a mãe já fica sabendo
que o filho é deficiente e conta com o apoio e a
orientação de médicos e profissionais
especializados. Eles orientam a mãe que o excepcional
precisa ser bem educado, para que ele seja aceito. E isso
vale para pessoas normais também. Uma pessoa normal
sem educação é rejeitada! Mas isso
tudo depende muito da postura da família em relação
ao deficiente. Por isso, temos na ADERE não só
o apoio psicológico aos aprendizes, mas também
a família, principalmente aquele que é carente.
Estes precisam muito mais. O erro está na desinformação.
Como
a senhora define a ADERE hoje.
A ADERE é hoje uma instituição de primeiro
mundo dentro deste País de terceiro mundo. Temos
muito orgulho e achamos nosso trabalho muito honesto, muito
bem feito. Estamos abertos a quem quiser conhecer nosso
trabalho e nos visitar.
(Leia
a entrevista completa na versão impressa da
Comando Rock que já está nas bancas)
