Edição #41

COMANDO SOLIDÁRIO: PROJETO PITU LEAL
JOVENS E RECICLAGEM NA ARTE DA PERCUSSÃO

O projeto recentemente criado reúne cerca de 30 crianças e adolescentes carentes para preservarem o ambiente na produção e aprendizado de instrumentos musicais feitos a partir de materiais reciclados

Malu Viotti

Em abril deste ano, o baterista da banda Mr. Black, Pitu Leal, teve a idéia de integrar música, meio-ambiente e trabalho social. Com isso, criou o Projeto Pitu Leal Percussão Artesanal, trabalho que ensina crianças e adolescentes a tocar e fabricar instrumentos de percussão com materiais recicláveis.

O projeto visa aprofundar as competências artísticas dentro da percussão, induzir os alunos ao conhecimento de outras etnias e ritmos brasileiros, utilizando assim a improvisação com os diversos tipos de materiais reaproveitáveis dentro da realidade local, nunca esquecendo das preocupações com o meio-ambiente.

A intenção do programa social é preparar os alunos para que estes sejam capazes de expressar-se, articulando a imaginação, a emoção, a sensibilidade e a reflexão ao realizar e fazer fluir expressões artísticas.

Mesmo com tão pouco tempo de existência, o projeto já teve um bom reconhecimento. Cerca de 20 crianças e adolescentes (das 30 que fazem parte do trabalho) tocaram junto com o Living Colour na entrevista coletiva que a banda promoveu em São Paulo, no mês de agosto, quando o grupo veio tocar no Brasil. Juntos, apresentaram sucessos como "Love Rears Its Ugly Head" e "Glamour Boys".

Em entrevista a Comando Rock, o coordenador Pitu Leal fala sobre o projeto, a idéia de utilizar material reciclável para a produção dos instrumentos de percussão, a jam session ao lado do Living Colour e os próximos passos do programa.

Comando Rock: Como e quando o Projeto Pitu Leal Percussão Artesanal foi criado?
Pitu Leal: O projeto foi criado este ano, mais precisamente no mês de abril. A idéia surgiu após chegarmos de uma viagem feita pela África na qual levei alguns ex-alunos já maiores de idade. Nesta nossa volta, algumas crianças da comunidade ficavam em frente a minha garagem vendo os adolescentes ensaiarem. Foi a partir daí que decidi ensinar a eles como tocar os instrumentos.

Como surgiu a idéia de produzir instrumentos de percussão com material reciclado?
Desde jovem tinha o dom de improvisar meus próprios instrumentos. Porém, na época, não existia a matéria-prima que uso agora. A idéia dos instrumentos veio com a necessidade de fazer um trabalho de preservação do meio-ambiente, pois, em todas as comunidades que passei ou morei não dávamos importância ao nosso espaço de utilidade pública. Cuidávamos somente de nossa casa, não havia preocupação com o que acontecia fora dela. Acho que é responsabilidade de todos contribuir para a preservação do planeta.

O projeto é voltado a um bairro ou comunidade especifica?
No momento, o projeto se restringe ao bairro do Real Parque, Zona Sul de São Paulo, mas existem outras comunidades que conhecem e admiram nosso trabalho. Temos primeiro o objetivo de fortalecer o trabalho em nossa comunidade e fazer com que nossos jovens e crianças saibam a responsabilidade que têm no futuro.

Quem pode participar do Projeto Pitu Leal Percussão Artesanal?
O projeto atua com crianças e jovens de qualquer idade. Nossa intenção é fazer com que eles pratiquem o ato da convivência e respeito sem que a idade interfira. O que fazemos é deixar com que os mais novos aprendam a ouvir os sons e despertem suas aptidões musicais, sem precisar ter um compromisso com o ritmo.

As crianças precisam estar matriculadas na escola para poder participar do projeto?
Este é o foco principal do projeto. Temos algumas conversas com os pais para que possamos manter as crianças nas salas de aula, assim como cobramos também um ensino de qualidade. O ensino da música tenta ajudar a melhorar o reflexo, agilidade, coordenação motora e pensamento rápido. A música nos ajuda em momentos de ansiedade. Com ela aprendemos a ouvir e falar no momento certo, a dar e receber oportunidades e respeitar as capacidades um dos outros. O trabalho com a reciclagem procura ensinar a importância de preservar o espaço em que vivemos.

Quantas crianças e adolescentes participam do Pitu Leal?
Temos mais ou menos 30 no total e o número está aumentando cada vez mais.

Quem são os professores do projeto? São voluntários?
Todos que atuam no projeto são amigos e ex-alunos que me acompanham há algum tempo. Quem me ajuda, e muito, em tudo que fazemos é minha mulher Ana Paula. Ela fez faculdade de Direito e é quem nos dá suporte, organiza e trabalha na área administrativa de alguns projetos, além de tocar no grupo junto com a Tayná, nossa filha.

São as próprias crianças que fabricam os instrumentos?
As crianças menores não participam da confecção dos instrumentos porque é preciso mexer com algumas ferramentas que são perigosas, mas os jovens acima de 16 anos entram num processo de aprendizado e exploração de sons. Usamos desde garrafas de refrigerante e latas até pedaços de madeira. E, quando não temos nenhum material para usar, tiramos som de qualquer coisa. Fazemos o ritmo até em nosso próprio corpo.

Como o projeto é sustentado?
Não temos nenhum apoio empresarial, governamental ou pessoal. As oficinas são feitas em minha própria garagem, num espaço pequeno onde nos apinhamos junto com os instrumentos musicais. E é neste mesmo lugar que preparamos o nosso repertório.

Quais são as coisas que mais necessitam para continuar o projeto?
No momento estamos precisando de alguns microfones, aparelhagem de som (mesa, amplificadores, potências, caixas amplificadas etc...) e uma bateria. Por isso queremos leiloar uma guitarra autografada que ganhamos do Living Colour.

Como aconteceu a parceria de vocês e o Living Colour?
Temos um amigo que é produtor. Ele sempre achou que nosso trabalho tinha um diferencial, principalmente por fazer uso de material reciclado. Foi ele quem fez os contatos com a produção do show do Living Colour para que a banda conhecesse nosso trabalho.

Como as pessoas costumam ajudar o projeto? Financeiramente ou com doações de materiais?
A intenção do grupo é crescer e se manter, pois o projeto visa melhorar a qualidade de vida de cada um dos participantes através de nossas habilidades. Para isso temos um grupo que atua captando recursos através da divulgação do nosso trabalho ou com a venda de instrumentos produzidos em feiras de artesanato.

Costumam se apresentar em público? Tem alguma apresentação marcada?
Nos apresentamos esporadicamente. Estamos com uma apresentação marcada para dia 24 de setembro (ps: a entrevista foi realizada no começo do mês passado) em Campo Limpo, Zona Sul da capital paulista.

(Leia a entrevista completa na versão impressa da Comando Rock que já está nas bancas)

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