COMANDO
SOLIDÁRIO: PROJETO PITU LEAL
JOVENS E RECICLAGEM NA ARTE DA PERCUSSÃO
O
projeto recentemente criado reúne cerca de 30 crianças
e adolescentes carentes para preservarem o ambiente na produção
e aprendizado de instrumentos musicais feitos a partir de
materiais reciclados
Malu
Viotti
Em
abril deste ano, o baterista da banda Mr. Black, Pitu Leal,
teve a idéia de integrar música, meio-ambiente
e trabalho social. Com isso, criou o Projeto Pitu Leal Percussão
Artesanal, trabalho que ensina crianças e adolescentes
a tocar e fabricar instrumentos de percussão com
materiais recicláveis.
O
projeto visa aprofundar as competências artísticas
dentro da percussão, induzir os alunos ao conhecimento
de outras etnias e ritmos brasileiros, utilizando assim
a improvisação com os diversos tipos de materiais
reaproveitáveis dentro da realidade local, nunca
esquecendo das preocupações com o meio-ambiente.
A
intenção do programa social é preparar
os alunos para que estes sejam capazes de expressar-se,
articulando a imaginação, a emoção,
a sensibilidade e a reflexão ao realizar e fazer
fluir expressões artísticas.
Mesmo
com tão pouco tempo de existência, o projeto
já teve um bom reconhecimento. Cerca de 20 crianças
e adolescentes (das 30 que fazem parte do trabalho) tocaram
junto com o Living Colour na entrevista coletiva que a banda
promoveu em São Paulo, no mês de agosto, quando
o grupo veio tocar no Brasil. Juntos, apresentaram sucessos
como "Love Rears Its Ugly Head" e "Glamour
Boys".
Em
entrevista a Comando Rock, o coordenador Pitu Leal
fala sobre o projeto, a idéia de utilizar material
reciclável para a produção dos instrumentos
de percussão, a jam session ao lado do Living Colour
e os próximos passos do programa.
Comando
Rock: Como e quando o Projeto Pitu Leal Percussão
Artesanal foi criado?
Pitu Leal: O projeto foi criado este ano, mais precisamente
no mês de abril. A idéia surgiu após
chegarmos de uma viagem feita pela África na qual
levei alguns ex-alunos já maiores de idade. Nesta
nossa volta, algumas crianças da comunidade ficavam
em frente a minha garagem vendo os adolescentes ensaiarem.
Foi a partir daí que decidi ensinar a eles como tocar
os instrumentos.
Como
surgiu a idéia de produzir instrumentos de percussão
com material reciclado?
Desde jovem tinha o dom de improvisar meus próprios
instrumentos. Porém, na época, não
existia a matéria-prima que uso agora. A idéia
dos instrumentos veio com a necessidade de fazer um trabalho
de preservação do meio-ambiente, pois, em
todas as comunidades que passei ou morei não dávamos
importância ao nosso espaço de utilidade pública.
Cuidávamos somente de nossa casa, não havia
preocupação com o que acontecia fora dela.
Acho que é responsabilidade de todos contribuir para
a preservação do planeta.
O
projeto é voltado a um bairro ou comunidade especifica?
No momento, o projeto se restringe ao bairro do Real Parque,
Zona Sul de São Paulo, mas existem outras comunidades
que conhecem e admiram nosso trabalho. Temos primeiro o
objetivo de fortalecer o trabalho em nossa comunidade e
fazer com que nossos jovens e crianças saibam a responsabilidade
que têm no futuro.
Quem
pode participar do Projeto Pitu Leal Percussão Artesanal?
O projeto atua com crianças e jovens de qualquer
idade. Nossa intenção é fazer com que
eles pratiquem o ato da convivência e respeito sem
que a idade interfira. O que fazemos é deixar com
que os mais novos aprendam a ouvir os sons e despertem suas
aptidões musicais, sem precisar ter um compromisso
com o ritmo.
As
crianças precisam estar matriculadas na escola para
poder participar do projeto?
Este é o foco principal do projeto. Temos algumas
conversas com os pais para que possamos manter as crianças
nas salas de aula, assim como cobramos também um
ensino de qualidade. O ensino da música tenta ajudar
a melhorar o reflexo, agilidade, coordenação
motora e pensamento rápido. A música nos ajuda
em momentos de ansiedade. Com ela aprendemos a ouvir e falar
no momento certo, a dar e receber oportunidades e respeitar
as capacidades um dos outros. O trabalho com a reciclagem
procura ensinar a importância de preservar o espaço
em que vivemos.
Quantas
crianças e adolescentes participam do Pitu Leal?
Temos mais ou menos 30 no total e o número está
aumentando cada vez mais.
Quem
são os professores do projeto? São voluntários?
Todos que atuam no projeto são amigos e ex-alunos
que me acompanham há algum tempo. Quem me ajuda,
e muito, em tudo que fazemos é minha mulher Ana Paula.
Ela fez faculdade de Direito e é quem nos dá
suporte, organiza e trabalha na área administrativa
de alguns projetos, além de tocar no grupo junto
com a Tayná, nossa filha.
São
as próprias crianças que fabricam os instrumentos?
As crianças menores não participam da confecção
dos instrumentos porque é preciso mexer com algumas
ferramentas que são perigosas, mas os jovens acima
de 16 anos entram num processo de aprendizado e exploração
de sons. Usamos desde garrafas de refrigerante e latas até
pedaços de madeira. E, quando não temos nenhum
material para usar, tiramos som de qualquer coisa. Fazemos
o ritmo até em nosso próprio corpo.
Como
o projeto é sustentado?
Não temos nenhum apoio empresarial, governamental
ou pessoal. As oficinas são feitas em minha própria
garagem, num espaço pequeno onde nos apinhamos junto
com os instrumentos musicais. E é neste mesmo lugar
que preparamos o nosso repertório.
Quais
são as coisas que mais necessitam para continuar
o projeto?
No momento estamos precisando de alguns microfones, aparelhagem
de som (mesa, amplificadores, potências, caixas amplificadas
etc...) e uma bateria. Por isso queremos leiloar uma guitarra
autografada que ganhamos do Living Colour.
Como
aconteceu a parceria de vocês e o Living Colour?
Temos um amigo que é produtor. Ele sempre achou que
nosso trabalho tinha um diferencial, principalmente por
fazer uso de material reciclado. Foi ele quem fez os contatos
com a produção do show do Living Colour para
que a banda conhecesse nosso trabalho.
Como
as pessoas costumam ajudar o projeto? Financeiramente ou
com doações de materiais?
A intenção do grupo é crescer e se
manter, pois o projeto visa melhorar a qualidade de vida
de cada um dos participantes através de nossas habilidades.
Para isso temos um grupo que atua captando recursos através
da divulgação do nosso trabalho ou com a venda
de instrumentos produzidos em feiras de artesanato.
Costumam
se apresentar em público? Tem alguma apresentação
marcada?
Nos apresentamos esporadicamente. Estamos com uma apresentação
marcada para dia 24 de setembro (ps: a entrevista foi
realizada no começo do mês passado) em
Campo Limpo, Zona Sul da capital paulista.
(Leia
a entrevista completa na versão impressa da
Comando Rock que já está nas bancas)
