COMANDO
SOLIDÁRIO
AILA: CUIDADO DOS MELHORES AMIGOS DO HOMEM
Entidade
resgata animas e busca conscientizar a população
sobre a importância dos animais em nossas vidas
Paula
Fabri
A
Aliança Internacional do Animal é mais conhecida
como Aila. Essa associação luta pelos direitos
dos animais desde 99 e tem como presidente a ativista norte-americana
Ila Franco, radicada em nosso País há mais
de duas décadas. Sua sede se encontra na comunidade
de Paraisópolis, uma das maiores favelas do Brasil,
que se encontra na zona Sul da cidade de São Paulo.
O trabalho feito na Aila é direcionado a animais
domésticos urbanos, caso de cães e gatos.
Eles, além de resgatarem animais de rua, muitas vezes
(em casos extremos como acidentes e abandono) ainda fazem
atendimentos em sua clínica a preços populares.
Em
sua luta pelos direitos dos animais, a entidade procura,
de diversas formas, conscientizar a comunidade onde se encontra
com iniciativas como a Unidade Móvel de Esterilização
e Educação: um ônibus apelidado de CastroBus
que é usado para ir a diferentes lugares com o objetivo
de castrar animais para impedir a reprodução
desenfreada e, por conseqüência, o abandono.
Além de orientar sobre posse responsável,
combater às práticas de crueldade, esclarecimento
sobre as doenças dos animais e os métodos
para evitá-las e conscientização sobre
a importância da preservação do meio
ambiente.
A
seguir leia a entrevista que a coordenadora da Aila, Marta
Giraldes, concedeu a Comando Rock, onde fala sobre
as ações da entidade e o objetivo buscado
por ela.
Comando Rock: Como e quando a Aila (Aliança Internacional
do Animal) foi criada?
Marta Giraldes: A nossa presidente Ila Franco
é ativista e protetora dos animais desde pequena,
já que a família dela sempre esteve envolvida
na luta pelos direitos dos animais. Ela veio ao Brasil há
20 anos e ficou totalmente abismada com a situação
dos animais no nosso País. Mas foi apenas em 99 que
a Aila foi criada.
Fale
um pouco sobre a instituição.
Ficamos dentro da comunidade de Paraisópolis e somos
a única ong/clínica que se encontra dentro
de uma favela no Brasil, provavelmente a única na
América Latina.
Que
tipo de trabalho vocês fazem?
Fazemos um trabalho de educação e conscientização
com a comunidade e as pessoas em geral. Queremos mostrar
a importância da vida animal. Hoje, o abandono de
cães e gatos é um problema em dimensão
de calamidade pública. Um problema que as pessoas
não consideram, mas é diretamente ligado à
saúde pública. Os bichos são animais
mendigos e causam transtornos que podem ser solucionados.
Quantas vezes não vemos o trânsito parar por
causa de um atropelamento de um bichinho? Eles vivem hoje
em situação "desumana". Trabalhamos
a preços populares para que todo mundo tenha acesso
a um bom tratamento para seu animal. Mas, quando conhecemos
o caso e vemos que pessoa não tem como pagar, trabalhamos
também de forma filantrópica. Tudo com material
de alta qualidade.
Como
é o funcionamento da Aila?
Trabalhamos de segunda à sexta-feira, das 9 às
18 horas. De sábado e feriados funcionamos das 9
às 17 horas.
Vocês
fazem diversas campanhas como Circo Legal Não Tem
Animal, Campanha Itinerante de Educação, Adoção.
Fale um pouco sobre o trabalho que a Aila faz com elas.
Queremos, com esses projetos, acabar com o comércio
de animais em vitrines, de lojas e pet shops. Porque a procedência
dos bichos colocados à venda, em sua maioria, é
de canis irresponsáveis, onde colocam um casal de
gato ou cachorro para procriar desenfreadamente. Onde logo
após dar a luz, os filhotes são retirados
para que o leite da fêmea seque logo e ela possa entrar
no cio rapidamente para poder ter novos filhotes. Depois
de passar anos nesse ciclo, os animais acabam sendo descartados
e abandonados por chegar a um ponto onde não podem
mais dar lucro. Esse é apenas um dos problemas que
lutamos contra.
Vocês
estão associados há outros grupos que lutam
pelos direitos dos animais?
Temos uma parceria moral com qualquer entidade que lute
pelos direitos dos animais, sejam eles domésticos
ou silvestres.
A
Aila recebe ajuda financeira ou apoio de algum órgão
ligado ao governo?
Não. Há alguns anos tínhamos uma parceria
com a prefeitura de São Paulo, onde tínhamos
um ônibus com o qual fazíamos campanhas itinerantes
a favor da conscientização e esterilização
dos animais.
Vocês
fazem resgate de animais? Que tipo de animais vocês
já resgataram?
Resgatamos cães, gatos, mas já teve casos
de cavalos e até vacas.
Dos
animais que vocês resgatam qual a média de
sobrevivência?
Tem alguns casos onde a recuperação do animal
é realmente muito difícil como, por exemplo,
casos de atropelamentos. Quando recebemos uma denúncia
e resgatamos o animal damos a ele todo o tratamento necessário
e, em média, 98% dos casos o animal sobrevive.
Como
funciona a adoção dos animais que vocês
resgatam?
Realmente somos muito criteriosos quanto a isso. Quando
uma pessoa vem até nós buscando um animal
ela responde a um questionário. Fazemos questão
de falar com ela e nos certificarmos de que ela tem condições
e real vontade de ter um bicho. Além, é claro,
que irá cuidar bem dele. Como não é
uma doação, o interessado paga uma taxa e
leva o animal daqui já esterilizado e vacinado.
Vocês
tratam somente animais que são resgatados?
Nossa clínica trata tanto os bichos resgatados quanto
animais que já possuem donos que os trazem aqui.
Esse
tratamento é gratuito?
Não é gratuito porque sabemos que tudo que
é de graça neste País as pessoas não
dão valor. Como não recebemos ajuda de nenhum
órgão do governo, o trabalho que oferecemos
é a única forma que temos para captar recursos
que mantém a Aila funcionando. Gastamos por mês
cerca de cinto toneladas de ração. Além
disso, temos outros grandes gastos para manter tudo. Por
isso cobramos preços populares pelo nosso trabalho.
Mas, em casos extremos, também fazemos trabalho filantrópico.
Hoje
quantos animais vocês têm na Aila?
No total são mil animais. Desses, 250 são
gatos.
Tem
algo que vocês estejam precisando muito?
Temos tentado conseguir uma carreta, daquele tipo que pode
transportar cavalos, para que possamos cuidar desses animais
que as pessoas parecem não ver, mas ainda existem
em nossas cidades e são muito mal tratados.
Como
as pessoas podem ajudar a Aila?
De diversas formas. Uma é tornando-se um sócio
contribuinte, onde a gente pega os dados da pessoa e todo
mês mandamos um boleto com uma quantia previamente
acertada. Mas podem também contribuir de outras formas,
como trazendo material de limpeza que utilizamos sempre.
Aceitamos a doação de diversas coisas, seja
ração, brinquedos para os bichos, cobertor,
leite, remédios. Aceitamos praticamente tudo.
Quem
não tem como contribuir em dinheiro todos os meses
também pode contribuir financeiramente?
Claro! Temos uma conta da Aila onde as pessoas podem depositar
a quantia que puderem.
O
que se tem que fazer para se tornar um voluntário?
Durante o tempo em que trabalhamos descobrimos diversas
coisas. Uma delas é que boa parte dos brasileiros
ainda não "entenderam" como o trabalho
voluntário funciona. Já sofremos muito com
voluntários que vinham e se dispunham a fazer certos
trabalhos, mas após um certo tempo desistiam e deixavam
a gente na mão. Então hoje trabalhamos como
uma empresa. As pessoas que aqui trabalham recebem um salário,
porque assim elas levam seu trabalho a sério e não
têm como abandonar tudo. O tipo de voluntários
que estamos procurando é que faça medicina
veterinária e possam ajudar nos cuidados dos animais
em si, nos atendimentos e procedimentos necessários.
Ou então pessoas que possam nos ajudar a entrar em
contato com empresas e possíveis contribuintes que
possam se dispor a ajudar a Aila financeiramente.
O
que vocês acham sobre o povo brasileiro em si quanto
aos cuidados que têm com seus animais de estimação?
O povo brasileiro é realmente afetuoso, mas ainda
tem muito que aprender. Ele ainda não sabe dar o
devido valor ao animal. Na primeira crise que uma família
passa a primeira coisa a se tornar supérfluo é
o bichinho de estimação. A Igreja Católica
também não ajuda nessa questão quando
diz que o animal não possui alma. Imagine como isso
repercute em um País onde a sua maioria ainda é
de pessoas católicas? O povo tem de enxergar que
o animal, a partir do momento que você o leva para
casa, se torna um membro da família. Que precisa
de um abrigo, adora tudo o que você faz por ele e
acima de tudo não tem como se defender do ser humano.
Se
uma pessoa possui um bichinho de estimação
e não tem mais como cuidar dele, o que vocês
sugerem que ela faça?
O primeiro de tudo tentamos contornar a situação.
Entender o por que aquela pessoa não tem mais condições
de cuidar de seu animal. Se existir condições,
mostrar a ela que o bicho é um ser vivo que se apega
às pessoas e, quando é abandonado, sente falta,
sofre muito e não tem como entender porque foi deixado.
Ele realmente perde o chão. Já vivenciei inúmeras
situações onde um animal foi abandonado pela
pessoa que cuidava dele e isso realmente destrói
o espírito do bicho. Quando realmente vemos que não
há como a pessoa continuar com o animal, fazemos
um trabalho onde o bicho aprende a viver com novos animais
e pessoas e tentamos achar um novo lar para ele o mais rápido
possível através de adoção.
Que
dicas vocês dão as pessoas que estão
à procura de um bichinho, seja ele gato, cachorro
etc?
Sou contra o etc. Para mim as pessoas deveriam ter apenas
cães e gatos. Passarinhos são feitos para
viverem livres. Ao contrário dos outros, eles são
independentes. Sempre que pessoas vêm buscar nosso
auxilio quanto a isso tentamos mostrar que levar um animal
para casa é um compromisso que se faz com uma vida.
Deixar as pessoas cientes de que a partir daquilo o bicho
que vive em média 14, 15 anos e vai ser responsabilidade
da pessoa e um apêndice da família, da casa.
Tem de ser tratado com carinho e amor, da mesma forma como
ele irá te tratar.
Ultimamente
casos envolvendo pitbulls e seres humanos vêm crescendo
muito. O que vocês acreditam que pode estar fazendo
com que esses incidentes tenham aumentado tanto?
Isso acontece porque muitas pessoas não tratam os
animais do jeito certo. Comprar e treinar como se fossem
máquinas sem dar a atenção devida a
ele. Assim como qualquer outro animal ele não é
uma máquina de matar. O que acontece é que,
às vezes, como qualquer outro bicho, ele pode atacar.
Mas isso acontece quando ele se sente intimidado. As pessoas
com medo desses ataques abandonam os seu animais que acabam
ficando na rua. Esse é um mercado que está
desenfreado, onde criadores irresponsáveis vendem
essas espécies sem se preocupar como fim que esse
cachorro terá e fica tudo por isso mesmo.
Uma
das "soluções" para esse tipo de
coisa é a esterilização dos animais,
fazendo com que eles não se reproduzam mais. O que
vocês pensam sobre isso?
A solução é esterilizar. A sociedade
brasileira não está preparada para ter um
animal feito um pitbull. Falo com experiência de quem
tem um pitbull na família. Criando o animal com carinho
ele não vai se virar contra você. O problema
maior é que aqui no Brasil as pessoas vêem
os animais como se fossem empregados. Ao invés de
investir na segurança como colocar cercas maiores,
pagar por um sistema de segurança, ele compra um
pitbull ou rottweiler e deixa o bicho lá para guardar
a casa. Todos sabemos que não é isso que impedirá
o ladrão de entrar em uma casa. Afinal de contas,
normalmente eles estão armados.
O
número de pet shops tem aumentado consideravelmente
nos últimos anos. O que vocês acham disso?
A cada dia que passa as pessoas se preocupam mais em humanizar
os bichos. Compram roupas, sapatos. Tudo bem. Mas vejo que,
ao mesmo tempo, tem gente que se preocupa em equipar seu
animal por puro status. Já vi uma coleira custar
R$ 5 mil. Se a pessoa foi lá, trabalhou e quis comprar,
tudo bem... é direito dela. Mas isso só mostra
que ela se preocupa somente com seu próprio bicho
e não com a espécie. Ela podia gastar esse
dinheiro ajudando entidades que lutam por tirar os animais
das ruas, que cuidam deles e tentam fazer com que tenham
uma vida digna. O que acho que falta é profissionalizar
esses locais. Quantos casos existem de animais que morreram
quando foram tosar ou tomar banho em pet shops? E, principalmente,
conscientizar donos de lojas desse tipo para que não
ocorra crueldade com os bichos.
